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domingo, 2 de agosto de 2020

Foi bom enquanto durou

Confinamento serviu de bomba-relógio para muitos casais

por Talita Duvanel

Getty Images
El divórcio
Dois meses após o início da quarentena imposta pela pandemia de Covid-19, a psicóloga carioca Renata, 36 anos, tomou uma decisão que impactaria ainda mais a vida da família: terminar um casamento de dez anos. A ideia da separação já era antiga, mas a convivência forçada fez emergir a certeza de que era preciso tomar um outro rumo, mesmo quando o mundo todo parece inteiramente perdido. "Da minha parte, já não estava funcionando, mas a gente ia levando. Ainda mais quando tem criança no meio", diz ela, mãe de um menino de 4 anos, que agora passa dois dias na casa dela e dois na do pai.
"Mas o confinamento faz com que você não consiga fugir de determinadas coisas. É um momento que temos para olhar para nós mesmos, e ficou impossível lutar contra alguns sentimentos."
O ato que Renata consumou é a aposta de muitos advogados para depois da pandemia. Apesar de os números de divórcios consensuais e litigiosos terem diminuído nos últimos meses (segundo o Tribunal de Justiça do Estado do Rio, em abril, maio e junho de 2019 foram 10.512 processos contra 3.110 no mesmo período deste ano), as buscas por assuntos relacionados ao tema não param de subir à medida que os meses passam.
Segundo dados do Google, as pesquisas pela expressão "como dar entrada no divórcio" cresceram 127% em maio de 2020 se comparadas ao mês anterior. "Há muita gente decidindo não seguir com uma relação a partir da experiência de confinamento. Tenho sido procurada por pessoas que tinham um desejo de separação latente e agora não querem mais adiar", diz a advogada colaborativa Olivia Fürst.
Nessa vertente do Direito em que ela atua, parte-se do princípio que ambas as partes do casal chegarão a um acordo sobre os pontos do divórcio (partilha de bens, responsabilidade dos filhos etc.) e não levarão as questões a um litígio, ou seja, a uma briga judicial.
Psicóloga atuante na Vara de Família do Tribunal de Justiça do Rio, Glicia Brazil vê a pandemia como o estopim para o que chama de separação psíquica. "É um processo muito íntimo e pode acontecer enquanto ainda se está junto de alguém. Pode-se estar numa relação ao mesmo tempo em que se elabora um divórcio", diz Glicia. "O período de quarentena acabou sendo a bomba-relógio para algo que estava incipiente em algumas famílias e que, com a proximidade, se tornou difícil de tolerar."
Essa vontade impossível de ser contida também tomou conta da engenheira carioca Luciana, 40 anos, que ia completar dez anos de união estável em junho. O tempo em casa deu a ela e ao companheiro a chance de colocarem as ideias na mesa e chegarem à conclusão de que o relacionamento acabou. Agora, Luciana só espera as aulas da filha, de 5 anos, voltarem, para que o ex saia de casa.
"Optamos por ele ficar aqui até que a rotina se reestabeleça", diz a engenheira. Ela já tem pesquisado sobre como desfazer a união legalmente, mas quer esperar uma reabertura maior da sociedade para seguir esse passo. O mesmo acontece com Renata, que ainda não deu entrada nos papéis de separação.
JCNET

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