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domingo, 4 de outubro de 2020

 

Já pensou sentir o cheiro de peixe no café? Isso pode ser consequência da Covid-19

Alteração recebe o nome de parosmia e indica a perda da capacidade por parte de pacientes de interpretar odores

por Larissa Bastos / JCNET


Arquivo Pessoal

Otorrinolaringologista, Alessandro D'Aquino explica que essas distorções podem inclusive diferenciar a Covid-19 de gripes

Sentir o aroma do perfume favorito, do café quentinho ou até o cheiro da chuva é algo comum aos quem têm o olfato bem definido. Porém, para alguns pacientes que tiveram o novo coronavírus, esse sentido é impactado durante um período. O café, por exemplo, passa a ter odor de peixe morto. Ou, então, qualquer ambiente passa a exalar 'perfume' de fumaça ou de cigarro. Especialistas nomeiam esse efeito de parosmia, ou seja, quando o nervo olfativo perde sua capacidade de interpretar cheiros. Inclusive tem sido comum médicos se basearem em alterações no olfato e no paladar para diferenciar uma gripe comum e a Covid-19.

Além da parosmia, existem outras variações relacionadas ao olfato, como a anosmia (ausência total do olfato) e a hiposmia (diminuição na capacidade olfativa). Também é comum os infectados apresentarem modificações no paladar, que são chamadas de ageusia (perda completa do paladar) e disgeusia (distorção do paladar). Neste último, o efeito é o mesmo da parosmia, só que no sabor. Em alguns casos, a carne pode ter gosto de gasolina ou o café parecer madeira podre, por exemplo.

De acordo com o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Alberto Consolaro, existem estudos que apontam evidências de que o Sars-CoV-2 tem "preferência" por infectar células nervosas e neurais. "Na medicina, essa afinidade é chamada de tropismo, que é a capacidade de um vírus infectar determinadas células de um organismo", explica.

Por causa disso, a Covid-19 pode ser responsável por afetar as tarefas que esses nervos exercem dentro do corpo humano. "O vírus entra no nervo e pode provocar alterações estruturais nele. Com isso, a função do órgão de transmitir o sabor ou o cheiro para o cérebro fica alterada e ocorrem essas distorções", complementa o pesquisador.

Consolaro ainda cita que estão sendo feitas pesquisas para identificar o quão comum esses efeitos são em pacientes com a Covid-19. "Têm estudos brasileiros que mostram que pelo menos 47% das pessoas com a doença apresentaram sintomas como disgeusia ou anosmia. Os outros 53% não manifestaram alterações. Outras pesquisas ainda tentam mostrar que a alteração é provocada não no nervo, mas sim no cérebro", conclui o pesquisador.

SINTOMA

Para o médico otorrinolaringologista, Alessandro D'Aquino, essas alterações são mais comuns entre pacientes assintomáticos ou que apresentaram quadro leve da doença. "Isso tem aparecido nos sintomas durante e após a infecção pelo vírus. Então, entre março e abril, nós [médicos] recebemos o alerta de que poderia ser um sinal de que esses efeitos diferenciariam a doença das outras gripes", afirma.

Ainda de acordo com médico, a ausência de paladar e olfato dura, em média, duas semanas. Porém, não exige tratamento médico específico. "No consultório, podemos fazer alguns testes para avaliar a perda e estimular a volta do paladar e do olfato, com cheiros e gostos específicos. Porém, existem casos de pacientes que, mesmo após seis meses, a situação não normalizou", destaca o médico.

GOSTO DE ISOPOR

Inclusive, não é difícil encontrar relatos de pessoas que passaram semanas sem sentir o gosto ou o cheiro das coisas após a contaminação pela Covid-19, em Bauru.

O analista de vendas Fabrício de Carvalho, de 35 anos, conta que testou positivo para coronavírus no início de agosto e, desde então, sente que só agora o olfato está se aproximando da normalidade. Ele, aliás, suspeitou da infecção pela doença justamente porque não estava sentindo o cheiro das coisas. "Essa semana, fiz uma faxina em casa e achei que tivesse esquecido de passar desinfetante, porque não senti o cheiro. Por enquanto, ainda não identifico coisas mais suaves, como perfumes. Mas, um mês atrás, por exemplo, aconteceu de eu não perceber que tinha comida estragada na geladeira", explica, destacando a evolução do seu quadro de saúde.

Nas primeiras semanas de recuperação, Fabrício também sofreu com a ausência do sabor dos alimentos, apesar de conseguir identificar a textura deles na época. "Eu sempre gostei muito de chocolate amargo. Mas quando comi um que era 85% cacau, parecia um pedaço de isopor. Também tenho o costume de tomar limão puro, mas sentia como se estivesse tomando água", relata, afirmando que o paladar, ao contrário do olfato, já está 100%.

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