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quarta-feira, 28 de outubro de 2020

 

Outubro Rosa: mulheres contam como reconstruir as mamas as ajudaram a lidar com o câncer

Cirurgia pode ser imediata ou tardia, trazendo tanto benefícios físicos quanto emocionais para a paciente

Ana Caroline Mota

Cirurgia pode ser imediata ou tardia, trazendo tanto benefícios físicos quanto emocionais para a paciente
Cristiane, Elaine e Thatiana: elas contam a experiência com a reconstrução de mama - Arquivo Pessoal

“Quando eu acordei da cirurgia, passei a mão pelos meus seios pra saber se ainda tinha eles, porque até então não era garantido que os médicos iriam conseguir reconstruir. E a sensação foi muito boa. Deu pra ter uma ideia de como ficou e achei que estavam mais bonitos do que antes.” É desta forma que a auxiliar administrativa Cristiane Lauriano, de 43 anos, conta sua experiência com a reconstrução das mamas após a cirurgia para a retirada do nódulo do câncer.

Durante o procedimento, realizado em maio deste ano, ela precisou remover 80% das mamas. Com o resultado, Cristiane define a sensação de saber que ainda possui seios como “gratificante”. “Não tem como, a gente se sente mulher, não tem jeito. Para mim foi muito bom”, diz.

Um dos principais medos das mulheres após o diagnóstico de câncer de mama costuma ser a possibilidade de remoção dos seios, durante um procedimento chamado mastectomia. Esse tipo de cirurgia pode ser parcial, quando apenas uma parte do tecido é removido, total, quando a mama é retirada por completo, ou até radical, quando, além da mama, são retirados músculos e tecidos próximos que podem ter sido afetados pelo tumor, diminuindo as chances de recidivas.

A cirurgiã plástica Tatiana Moura, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, conta que o câncer de mama é o segundo tipo mais comum em mulheres no Brasil, sendo responsável por 29% de novos casos de tumores anuais, de acordo com dados oficiais do Instituto Nacional do Câncer (INCA).
“Esse alto índice de diagnóstico faz com que a cirurgia reconstrutora seja bastante frequente. Mas a técnica empregada depende de diferentes fatores, como localização do tumor, tipo de ressecção tumoral, entre outros”, conta.

AJUDA POSITIVA
Quando, além da confirmação da doença, há a necessidade de mastectomia total ou radical, as pacientes costumam ficar bastante abaladas, visto que o processo afeta a autoestima, a estabilidade emocional e ainda traz dores e desconfortos na área operada, alteração na sensibilidade e até comprometimento do membro superior do lado operado.

Cristiane conta que teve pouco tempo para se preparar psicologicamente para a cirurgia e não nega as dores. No entanto, ressalta que a plástica nas mamas afeta positivamente o tratamento, já que ainda enfrenta a quimioterapia.
 
“Para nós, mulheres, os seios são muito importantes. Não tê-los acaba com a autoestima. Minhas mamas podiam não ser perfeitas, mas eu tinha elas. Saber que eu corria o risco de as perder era bem agoniante”, revela. 

Já a psicóloga aposentada Elaine Cristina Berenguer, de 60 anos, que também colocou as próteses assim que retirou o tumor e as mamas, diz que resolveu enfrentar a perda dos dois seios de uma maneira diferente. “Quando se está lutando pela vida não se pensa em autoestima. Eu só queria viver. Confesso que mexeu com o emocional, porque é a sexualidade, sensualidade, uma zona de prazer da mulher. Mas comprei sutiãs lindos e estou seguindo.”

RECONSTRUÇÃO TARDIA
Para minimizar o impacto negativo, muitos mastologistas e oncologistas optam por fazer a reconstrução mamária imediata, ou seja, na mesma cirurgia de ressecção tumoral. Dessa forma, a mulher não se vê sem a mama ou parte dela. “Mas, o procedimento também pode ser feito tardiamente, após a remissão da doença. Essa decisão é tomada em conjunto médico-paciente”, explica a cirurgiã plástica.

É o caso da fisioterapeuta aposentada Thatiana Bento, de 47 anos. Ela precisou retirar as duas mamas porque não pôde fazer a quimioterapia. Além disso, ao longo das 36 sessões de radioterapia, outros nódulos surgiram. Apenas um ano após o diagnóstico, em novembro de 2017, ela foi submetida à cirurgia.
“Cada caso é um caso, mas foi bem desgastante. No procedimento coloquei os expansores [que ajudam a preparar a pele para receber as novas próteses] e, a cada 15 dias, eu tinha que expandir. Não é fácil, são muitas dores, mas não é impossível. Quando se coloca uma meta e aceita, tudo tende a ser mais leve”, diz.

Thatiana, porém, lidou com uma infecção grave apenas um mês após a nova cirurgia, o que a deixou internada por 20 dias. Diante deste episódio, levou um ano e oito meses para conseguir enfrentar o medo e reconstruir as mamas.  

“Foi a fase que mais mexeu comigo. Eu encarei com apoio psicológico porque estava faltando algo, não aguentava mais usar enchimento, não podia ir à praia e tudo isso doía muito.” Ela conta ainda que tudo ocorreu bem e, há três meses, recebeu a ajuda de um projeto voluntário para reconstruir a aréola.

“Na hora já me senti poderosa. Voltou minha confiança em tudo, em todos os sentidos. Me sinto bem quando eu me olho no espelho. Depois com o redesenho da aréola eu cheguei em casa mostrei pra todo mundo. Eu me senti de volta, me senti novamente mulher. Voltou a segurança, a sensualidade, o empoderamento, a minha essência. É uma mistura de sentimentos”, conta emocionada.  

A cirurgião plástica Tatiana Moura ressalta que a reconstrução mamária é um procedimento realizado em etapas e, dependendo da técnica escolhida, podem ser necessárias ao menos três cirurgias.

O ANO INTEIRO
Neste Outubro Rosa, Cristiane, Elaine e Thatiana destacam que o câncer de mama deve ser lembrado o ano todo, mas afirmam a importância de haver um mês focado na conscientização da doença.

“Se todo mundo levasse a sério, principalmente as mulheres, não seria só outubro e sim o ano inteiro. É importante para dar um alerta pra mulherada, pelo menos uma vez no ano, de que tem que se tocar, tem que ir no médico.”
 
Sobre as lições que tiram do câncer, elas garantem que aprenderam a cuidar e se amarem mais. “A vida é maravilhosa e a gente tem que viver todos os dias como se fosse o último e agradecer sempre, porque não sabemos de nada”, diz Elaine. “Faço as coisas no meu tempo, sem cobranças, levo a vida mais leve, mais tranquila, curto mais minha família. Só gratidão”, afirma Thatiana. “O melhor é saber que eu posso acordar de manhã e ver a luz do sol. Sou grata pela vida e por saber que posso zelar por ela, e isso só depende de mim”, reflete Cristiane. 

Conteúdo; Revista Ana Maria

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