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domingo, 18 de outubro de 2020

 

'Pais conscientes devem tentar rever seus hábitos'


Pode comer aquele alimento? A partir de que idade? E o que não pode? O que não falta é dúvida quando o assunto é a alimentação das crianças. Em entrevista à coluna, o professor assistente de Nutrologia Pediátrica da Faculdade de Medicina da UFRJ e chefe do Serviço de Nutrologia Pediátrica do IPPMG UFRJ, Hélio Rocha, fala sobre o tema, aponta os erros mais comuns e dá dicas.

Após seis meses de aleitamento materno exclusivo, é chegado o momento de apresentar outros alimentos para o bebê. Nesta fase, o que pode e o que não pode ser oferecido ao bebê?

Às vezes, pensamos que a humanidade surgiu no século passado. Temos cerca de um milhão de anos como espécie. O que será que bebês que ganhavam autonomia suficiente para pegar com as mãos, morder retirando pequenos pedaços e deglutir comiam há 10 mil anos? Os bebês podem receber qualquer alimento que um adulto consuma a partir dos 6 meses. O importante é que seja em porções e consistência adequadas à boquinha sem dentes e pequena. A condição adequada para isso, além da habilidade neuromotora, é que o aleitamento ao seio materno seja mantido. Além de garantir que ele receberá suficiente nutrição, o leite materno ajuda que outros alimentos não contaminem, provoquem menos intolerância e sejam melhor absorvidos e utilizados pelo organismo do bebê.

É verdade que não é recomendável bater a comida do bebê no liquidificador? Por quê?

Quando introduzimos alimentos complementares ao aleitamento materno, o desenvolvimento neuromotor do bebê já acopla com essa "novidade" pequenos pedaços ou purês, amassados, desfiados são estimulantes para o desenvolvimento mastigatório e deglutição. Quando tornamos as refeições em líquidos, esses estímulos desaparecem. O bebê tem o prejuízo no seu desenvolvimento. Muitos ficam presos a um estado de subdesenvolvimento dessa função e dependentes de alimentos líquidos por anos. Portanto, liquidificador não deve ser usado nas preparações para alimentação complementar (entre 6 meses e 2 anos), ele pode interferir de forma negativa no desenvolvimento alimentar da faixa etária específica.

Com que idade o bebê pode comer a comida da família?

As comidas, quer dizer as mesmas preparações e apresentações dos adultos, quase sempre por volta dos 5 anos. Os alimentos usados pelos adultos em preparações e apresentações adaptadas às habilidades do bebê, quase sempre aos 12 meses. As restrições são para exageros de temperos, consistência e alimentos inadequados, como ultraprocessados, temperos fortes, bebidas industrializadas e, claro, bebidas alcoólicas.

Quais são os erros mais comuns cometidos pelos pais na alimentação dos filhos?

A suspensão do aleitamento, introdução precoce de alimentação complementar e ultraprocessados, como refrigerantes e até bebidas alcoólicas.

Muitas vezes, as crianças rejeitam alimentos sem nem provar. Há um método para ajudar a tornar os alimentos mais atrativos?

A criação de hábitos alimentares é uma tarefa gostosa da família com a criança que envolve comer juntos e estimulando a introdução de "novidades", seja de sabores, meios (colher, depois garfos ou mãos). É comum haver rejeições a alguns alimentos ao serem apresentados. Duas regras são preciosas. A primeira é jamais forçar. Isso significa não insistir com ofertas de premiações ou ameaças e castigos. Essas atitudes confundem, assustam e, na maioria das vezes, reforçam a rejeição. A segunda é oferecer em outro momento sob outra preparação e aparência. Hoje se recomenda até 15 tentativas com essa tática. O sucesso é bem maior, mas também temos que aceitar que alguns sabores não agradam algumas ou muitas pessoas.

Para conseguir fazer com que seus filhos comam, há pais que acabam recorrendo a TV, celular, tablet ou brinquedos. Esse artifício deve ser evitado?

As refeições, em especial para crianças, são atividades complexas e que se destinam a elas mesmo. Portanto, quanto mais centradas no ato de alimentar, melhor. Atividades paralelas ou estímulos diferentes ao ato não contribuem para bons hábitos alimentares.

Que dicas você dá para os pais conseguirem fazer com que os filhos tenham uma alimentação saudável?

Muitos adultos têm hábitos alimentares equivocados e confusos. Pais conscientes devem tentar rever seus hábitos quando investem em ter filhos. O melhor investimento em bons e saudáveis hábitos alimentares é conseguido pelo exemplo. O comer junto, as descobertas amparadas pelo interesse dos pais é o melhor "tempero". Ouvir e respeitar os profissionais de saúde nos períodos críticos, como o da alimentação complementar, e durante a infância é o "segredo" para o sucesso do seu filho.

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