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domingo, 1 de novembro de 2020

 DMULHER

Aventuras Maternas: Atraso na fala

Como saber se é hora de procurar ajuda?


Juliana Trentini
POR PRISCILA CORREIA
Rio - Carol Diaz, mãe da pequena Liz, de 2 anos e 4 meses, conta que a menina estava começando a falar "mamãe" e "papai" no início do ano. "Como estávamos só nós três em casa, com o isolamento social passamos a nos comunicar com ela quase que por telepatia. Nós entendíamos o que ela queria só pelo apontar de dedos ou pelo olhar e não percebemos os sinais de atraso no desenvolvimento de fala dela. Felizmente, uma amiga estranhou o meu esforço para entender o que minha filha queria e nos indicou uma fono. E aí começamos o acompanhamento”, conta.
Os motivos que acarretam em atraso de fala podem ir desde algo simples, como perda auditiva, até algo mais complexo, como uma síndrome genética rara ou algum problema congênito. Existe também o chamado Transtorno de Desenvolvimento da Linguagem, como é o caso de Liz. Ela tem o que, segundo a fonoaudióloga Juliana Trentini, do Canal Fala Fono, no Youtube, é um dos problemas de desenvolvimento infantil mais comuns, mas o que menos se ouve falar. “O atraso no aparecimento da linguagem oral pode, muitas vezes, ser o sinal de problemas auditivos, falta de estímulos ou, ainda, de transtornos mais globais no desenvolvimento, como o Autismo e a Deficiência Intelectual. No entanto, também pode ser o indício de TDL, que não tem conexão com distúrbios auditivos nem TEA. Os pais começam a perceber problemas no desenvolvimento linguístico da criança por volta dos dois ou três anos de idade, quando os filhos não falam, demoram para iniciar a produção das primeiras palavras, param de aprender novas ou quando não conseguem combinar palavras para formar frases”, explica.
Identificação bilateral
Cada criança tem mesmo o seu tempo? Apesar de ser senso comum entre as mães, Juliana Trentini explica que existe sim um desenvolvimento médio da criança e que quando o atraso é significativo, tanto qualitativa quanto quantitativamente, já não é natural ou esperado. “Pode ser um simples atraso que será recuperado espontaneamente. Mas também pode ser também um atraso moderado que precise de ajuda para recuperar bem ou um transtorno sério. Só é possível saber ao certo o que é por meio de uma avaliação precisa e acompanhamento”, enfatiza.

Mas o que os pais podem fazer? A fono explica que o primeiro passo é observar as janelas de desenvolvimento da criança. O processo de aquisição da linguagem e desenvolvimento da fala segue alguns passos – e o que fugir disso deve ser avaliado por um especialista da área. A partir dos 6 meses, o bebê balbucia bastante, faz contato visual e reage aos gracejos dos pais. Entre 9 e 12 meses, está na fase de lalação e faz sons duplicados de consoante e vogal, como: “mamamama”, “papapapapa”, “dadadada” etc. Por volta dos 12 meses inicia as primeiras palavrinhas, geralmente "mamã" ou "papa". E, a partir de então, a criança começa a “pegar o ritmo”, chegando aos 18 meses com um vocabulário que inclui, em média, 30 palavras – algumas mal pronunciadas e imprecisas, mas ainda assim estáveis e recheadas de sentido.
Ao completar 2 anos, a criança terá um vocabulário médio de 150 palavras e começará a formar frases simples, como "qué àga" (quero água) ou "dá bó" (dá bola) - se inicia uma fase de fala telegráfica, em que o bebê seleciona os elementos mais importantes das sentenças e os separa se expressar oralmente, ainda com palavras mal pronunciadas. Já entre os 2 e 3 anos, os pequenos trabalham muito na construção dos processos motores de fala e suas transições. Com isto, as palavras vão ficando de melhor entendimento e as frases mais completas, já que com melhor fala a criança se dedica à construir seus conhecimentos de gramática e a usá-los. Aos 3 anos, eles já podem ser compreendidos por um adulto fora de seu convívio, sem "tradução" dos pais, e suas frases contêm praticamente todos os elementos. Erros com pronomes, conjugação verbal e flexão ainda ocorrem e não são apenas esperados, como parte importante do processo de reflexão sobre a língua. E é aos 5 anos que a criança conclui a aquisição de todos os fonemas da língua portuguesa, tem grande poder de comunicação, persuasão, inferência e consegue contar uma história ou um fato ocorrido com detalhes.

É importante dizer, ainda, que, embora nem todos tenham o mesmo ritmo de desenvolvimento, a comparação com outras crianças da mesma idade nem sempre é o melhor norteador. Pensamentos como “cada uma tem seu tempo” também não devem ser levados em consideração. “Se a criança demorar a andar, os pais vão procurar um especialista. Se demorar a comer, a mesma coisa. Mas quando se trata da fala é normal acharem que a criança vai falar no tempo dela. Em partes isso é verdade, mas é preciso ficar atento. Se houver qualquer desconfiança de dificuldade na aquisição de linguagem, é recomendável buscar ajuda de especialistas. Uma intervenção considerada precoce, feita antes dos três anos, com terapia fonoaudiológica e acompanhamento médico, pode oferecer resultados mais rápidos. Esse primeiros anos da criança são muitos importantes para o desenvolvimento da fala e aquisição da linguagem. São períodos de janela de oportunidade neurológica. Então, quando isso não acontece no momento oportuno, a janela se fecha. Isso não significa que não vão aprender a falar, mas que não vão conseguir falar com tanta facilidade como se tivessem recebido o suporte adequado. A linguagem é um indicador importante do desenvolvimento neurológico", diz Juliana Trentini.

Outra situação bastante comum é a de pais que acham que o desenvolvimento natural da fala vai brotar espontaneamente. Para isso acontecer, é preciso que exista um ambiente que propicie esse aprendizado, mesmo quando a criança não tem nenhuma dificuldade. “Um espaço estimulador, com conversas e inclusão dos bebês na rotina de todos, naturalmente vai facilitar o desenvolvimento. Mas o estilo de vida moderno, que presenciamos normalmente, hoje em dia, não é nada estimulador. Uma criança que vive em apartamento, não sai da frente de uma TV e fica o dia todo com chupeta na boca e sem interagir com ninguém, não tem como aprender a falar. Ela não está inserida no contexto social, em conversas, em diálogos. Não tem um adulto que esteja ali mostrando ou falando os nomes das coisas para ela”, diz Juliana. Outros erros comuns cometidos pelos pais são achar que chupeta não causa impacto, que mamadeira não é um problema e que a escola vai resolver tudo. “As escolas não têm um pozinho mágico que ensina a falar. Elas apenas contam com um ambiente mais estimulador. Mas os problemas do ambiente familiar não serão resolvidos pela escola”, conclui a fonoaudióloga.

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