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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Identificar hábitos é o começo para mudar rotinas de forma positiva, diz escritor


Daniel Teixeira/Estadão

 Uma deixa, uma rotina, uma recompensa. Esse é o funcionamento básico de um hábito, que representa 40% de todas as nossas ações diárias. Sim, boa parte do que fazemos diariamente não é estrategicamente pensado e decidido. Certamente foi no passado, mas, com o tempo, tornou-se um padrão inconsciente. É assim na vida pessoal, na carreira e no trabalho e também nas outras relações interpessoais. Talvez por isso seja tão difícil mudá-los - difícil, mas não impossível.

“Existem hábitos sobre como as equipes interagem entre si e por que algumas equipes têm mais sucesso do que outras. Acho que, se as pessoas analisarem seus próprios hábitos, mas também analisarem os hábitos das pessoas ao seu redor, elas terão a oportunidade de mudar as coisas, mudar suas vidas e suas próprias empresas de maneiras muito positivas”, disse ao Estadão Charles Duhigg, jornalista norte-americano e autor do best-seller O Poder do Hábito, que figurou entre os 15 livros mais vendidos no Brasil durante a quarentena.

Lançada em 2012, a obra permite entender como rastrear os dois componentes principais da formação de um hábito: a deixa, aquilo que impulsiona à realização de determinada ação, e a recompensa, aquilo que se anseia sentir ou ter após cumprir aquele comportamento. Com esses dois pontos bem definidos, qualquer alteração no meio pode ocorrer. Más condutas podem ser substituídas por boas.

Ao contar ótimas histórias e falar de experimentos curiosos, Duhigg mostra que tão poderoso quanto a criação de um novo hábito é transformá-lo para atingir melhores resultados, em diferentes esferas. Oito anos após ter sido publicado, muito já se falou sobre o livro e os temas relacionados ao comportamento que se torna ritualizado. Tarefa desafiadora foi encontrar novas abordagens para o assunto. Esta reportagem tentou.

Por telefone, o autor falou sobre como hábitos podem ser usados para melhorar a vida profissional, ser mais produtivo e comentou sobre a importância de confiar uns nos outros e em si para que mudanças positivas ocorram no ambiente de trabalho. Confira a seguir.

O livro é dividido em três partes: os hábitos entre pessoas, entre empresas e em comunidades. A forma como os hábitos funcionam em cada um desses grupos é a mesma?

Obviamente, os hábitos são diferentes entre esses grupos, mas o mesmo princípio básico se aplica: essa estrutura de usar a deixa, a rotina e a recompensa ajuda a analisar e identificar os hábitos e dá a você uma maneira de começar a pensar sobre como mudar isso.

O funcionamento é diferente em cada um dos grupos porque entre pessoas é um conjunto mais individual e, nos demais, há outros passos a seguir para a mudança de hábitos?

Sim, acho que há níveis diferentes. E um hábito dentro de uma empresa obviamente ocorre entre dezenas ou, potencialmente, centenas de pessoas. Um hábito em toda uma sociedade inclui milhares de pessoas. Então, eu acho que o jeito dessas coisas tende a ser muito diferente porque há diferenças entre como as pessoas se comportam e como as sociedades se comportam. Mas acho que a questão é que você pode usar ferramentas semelhantes para analisar os hábitos e isso dá algumas indicações de como começar a mudar.

Você poderia dar exemplos dessas ferramentas?

O livro está cheio de exemplos. Na Alcoa, a fábrica de alumínio, eles foram capazes de mudar os hábitos focando na segurança do trabalhador e no que a segurança ajudaria a mudar em outros comportamentos dentro da empresa. Há muitos exemplos de como as pessoas ou uma empresa muda seus hábitos. O movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos na década de 1960 tratava de mudar os hábitos sociais e a pressão foi uma parte importante para isso.

E como as pessoas podem usar o conhecimento sobre seus próprios hábitos para melhorar a vida profissional e serem mais produtivas?

A forma como você administra seu próprio tempo, muitas vezes, era um hábito. Sabemos que existem muitos hábitos mentais em torno de coisas como inovação e o quão criativo você é. Existem hábitos sobre como as equipes interagem entre si e por que algumas equipes têm mais sucesso do que outras. Acho que se as pessoas analisarem seus próprios hábitos, mas também analisarem os hábitos das pessoas ao seu redor, elas terão a oportunidade de mudar as coisas, mudar suas vidas e suas próprias empresas de maneiras muito positivas.

Nesse ponto, como seu segundo livro, ‘Mais Rápido e Melhor’, se relaciona com ‘O Poder do Hábito’?

Mais Rápido e Melhor é sobre os hábitos que nos ajudam a nos tornarmos produtivos. Os psicólogos se referem a isso como rotinas cognitivas, hábitos mentais com os quais contamos para realizar o trabalho. É tentar entender quais hábitos nos ajudam a ter sucesso e quais não e por quê. Então, por exemplo, eu mencionei inovação e criatividade. Outro é, por exemplo, foco. Como conseguimos manter o foco no trabalho? E, então, ter a capacidade de moldar o foco e garantir que nossa atenção permaneça em algum ponto. Isso pode ter um grande impacto sobre sua produção.

No livro, você fala sobre os Alcoólicos Anônimos e como comunidades podem fazer mudanças se tornarem reais porque as pessoas estão juntas, compartilhando problemas. Como essa estratégia pode ser usada no ambiente de trabalho?

Eu acho que em um ambiente de trabalho, muitas vezes, precisamos de duas coisas: confiar nas outras pessoas e que elas confiem em nós. E, muitas vezes, quando os pesquisadores escrevem sobre isso, eles falam sobre a necessidade de segurança psicológica, que é um sentimento de que posso confiar nas pessoas que trabalham na minha equipe, que são competentes e que farão as coisas que prometeram fazer. E assim, quanto mais pudermos criar essa confiança, mais pessoas podem se tornar bem-sucedidas.

Os hábitos parecem ter uma estrutura muito fácil e simples: eles precisam ter uma deixa, uma rotina e uma recompensa. Mas o que não é tão simples nisso? Qual a parte difícil?

Acho que só porque somos capazes de dizer algo de forma simples não significa necessariamente que podemos fazer, certo? Eu posso te dizer como andar de bicicleta, mas só te dizer como fazer não significa que você saiba apenas por ouvir. Muitas vezes, é difícil apenas descobrir quais são a deixa, a rotina e a recompensa, então leva algum tempo para ajudar alguém a entender isso. Mas outra coisa que pode ser desafiadora é tentar persistir, porque muitas vezes as pessoas estão em uma situação em que sabem o que devem fazer, mas não querem fazer porque gostam de seu antigo hábito ou porque gostam da recompensa que recebiam dele. Então, como resultado, elas tendem a se esquivar disso.

E como as pessoas podem rastrear suas deixas e mudar os hábitos por elas mesmas?

Vamos falar das deixas primeiro. Quase todas as deixas se enquadram em uma de cinco categorias. É geralmente uma hora do dia, ou um lugar específico, ou uma emoção particular, a presença de certas pessoas ou um comportamento antigo que se tornou ritualizado. E quando alguém sente que tem um hábito na vida, o que ela deve fazer? Ela deve anotar a que horas do dia o anseio surge, quem está por perto quando o anseio surge. E se você fizer isso por alguns dias, você começa a aprender.

Com a recompensa, muitas vezes é mais difícil descobrir, mas o segredo aí é muito semelhante. É fazer experimentos e tentar descobrir que, se eu suspeito que a recompensa para esse hábito em particular é satisfazer a fome, então posso me dar outra coisa que satisfaça a fome e ver se isso cura esse desejo. Ou apenas fazer experimentos com diferentes tipos de hábitos para tentar descobrir o que realmente está causando esse comportamento.

Por que nós não podemos eliminar um hábito, apenas substituí-lo? E qual a diferença entre acabar com um hábito para criar outro e substituir um hábito?

Bem, o que sabemos sobre nossa neurologia é que, uma vez que desenvolvemos as vias neurais associadas a um determinado comportamento, é muito, muito difícil se livrar delas. Em vez disso, é muito melhor tentar mudar o caminho. Então, você tem a velha deixa e a velha recompensa, mas há um novo comportamento lá que corresponde à deixa antiga e direciona para algo semelhante à recompensa antiga.

Mas você fala que os maus hábitos sempre estão lá e podem ser despertados por um gatilho. Não seria uma falha no loop do hábito ter sempre o mau hábito ali?

Mas nós podemos mudá-lo. Obviamente, as pessoas podem eliminar maus hábitos, mas o ponto é que precisa de força de vontade para eliminar um mau hábito e em um momento de estresse ele pode voltar. Melhor do que tentar eliminar é tentar mudar, porque isso terá mais sucesso.

Hábitos podem ser aprendidos ou são criados individualmente? Qual a diferença entre um hábito e uma convenção social?

Definitivamente, nós podemos aprender hábitos observando os outros, porque nós vemos nossos pais e a deixa a qual eles respondem, vemos as recompensas que eles próprios conseguem ou recebem. E, se nos comportarmos de maneira semelhante, obteremos as mesmas recompensas. Portanto, acho que as convenções sociais e os hábitos sociais são muitas vezes muito semelhantes.

SERVIÇO

O Poder do Hábito - Por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios

Autor: Charles Duhigg

Editora: Objetiva

Páginas: 408

Ano: 2012

E participe enviando suas dúvidas em áudio pelo WhatsApp 11 9 9350-7355. Não se esqueça de mandar o seu nome para que possamos identificá-lo. As dúvidas serão respondidas no podcast Trabalho Mental e nas reportagens.

 


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