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19/12/20

Fazer ciência no Brasil não é fácil, diz a geneticista Lygia da Veiga Pereira


Crédito: Reprodução/YouTube

Fernando Lavieri

A geneticista Lygia da Veiga Pereira chefia o Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da Universidade São Paulo. Atualmente está à frente do projeto DNA do Brasil, que pretende realizar o sequenciamento de DNA em larga escala no País, algo que coloca, inequivocamente, o Brasil no mapa mundial dos estudos genômicos. Com o surgimento do novo coronavírus, essa pesquisa teve que ser modificada. Assim, o foco de Lygia e de sua equipe se voltou para outros tipos de produção em laboratório. Por exemplo, a de desenvolver células que possam ser usadas em testes de novos medicamentos contra a Covid-19. A genética é o tema da vida da carioca da gema Lygia. Por causa dessa paixão e da vontade disseminar o conhecimento, a doutora fala como poucos, com didatismo e elegância, sobre temas incompreensíveis para a maioria dos brasileiros. O estudo desse tema também foi responsável por fazê-la deixar o Rio de Janeiro, a mais de 20 anos, e vir para São Paulo, onde encontrou apoio para desenvolver seu trabalho.

Qual a sua analise em relação à situação da ciência no Brasil?

De forma geral estamos vivendo um momento muito angustiante. A presidência, alto escalão, não enxerga a ciência como uma ferramenta para se definir políticas públicas. Eu acho isso muito grave. Fazer ciência no Brasil não é fácil. Não é visto como uma prioridade, motor de inovação, como investimento. Mas nesse governo a gente está vivendo uma situação dramática, que é a questão da pandemia, que a gente tem urgência que as decisões e políticas públicas sejam estabelecidas. E elas precisam ser estabelecidas a partir de dados científicos, usando métodos científicos, enfim.

Estamos tendo que discutir o básico, por exemplo, a Terra não é plana?

Essas coisas ficam como pano de fundo. Na situação que estamos vivendo, a pandemia deveríamos usar os dados concretos. Então, a gente pode querer muito que um remédio funcione, mas se os dados mostram que ele não funciona, não tem jeito. A gente pode querer muito que seja só uma gripezinha, mas quando a gente vê os números, não é só uma gripezinha. Então, esse negócio de fazer uma chacota do valor da ciência é muito ruim. Por outro lado, é muito interessante como a população toda se volta para ciência como o bote salva vidas dessa situação. Então, as pessoas não se davam muito em conta como a ciência está em tudo na nossa vida, agora com a pandemia o pessoal quer saber dos cientistas qual é a solução. “O que eu faço?”. É uma forma aguda das pessoas sentirem a importância da ciência.

Como se contrapor a respeito desse tipo informação?

Os profissionais têm que se ater a ciência. Não posso politizar a genética e o médico não pode politizar a medicina. Não é o que eu acho ou não acho. O que vale é o que os dados mostram.

Se o ministro Marcos Pontes disser que a Terra não é plana ele perde o emprego?

Não sei se isso. Mas se eu estivesse no lugar dele, e não pudesse dizer que a Terra é redonda, não ficava no governo, como o Mandetta e o Teich fizeram. Se for pra dizer que a Terra é plana eu vou embora.

Quais as pesquisas a senhora estava desenvolvendo antes da pandemia? O que mudou?

O que achei legal é o fato de toda a comunidade científica voltar suas habilidades para contribuir na luta contra a pandemia. Então, por exemplo, em nosso laboratório a gente trabalha com células-tronco para estudar como se dá o início do desenvolvimento do embrião humano. Então a gente sabe transformar células-tronco em células do coração, em células dos vasos sanguíneos, em células do pulmão e usamos isso para a nossa pesquisa básica. Quando surgiu a história do coronavírus, a gente direcionou esse nosso conhecimento para produzir células que serão usadas na descoberta de drogas que possam prevenir a infecção. Então, ao invés de produzir essas células para estudarmos como acontece a formação do coração, a gente produz essas células, infectá-las com o vírus e colocar uma porção de medicamentos diferentes para ver se algum deles previne a infecção. Então, estamos adaptando o que sabemos fazer, usando nosso arsenal para um objetivo comum. O outro projeto importante em que estamos trabalhando é o projeto DNA do Brasil que faz uma caracterização do genoma dos brasileiros. Havíamos recebido uma verba do ministério da Saúde, para aumentar o número de brasileiros seqüenciados. Mas o ministério pediu para que usássemos essa verba para sequenciar pacientes que tiveram a Covid-19 grave e aqueles que tiveram a forma mais leve. Para tentarmos descobrir se há algum componente genético que faz a pessoa ser mais suscetível a desenvolver a forma mais grave da doença ou, ao contrário, se existem variantes genéticas que protegem a pessoa da doença.

Já há resultados?

Não. O ministério da Saúde ainda está liberando a verba para que possamos fazer isso. No Brasil há uma certa burocracia com a verbas de pesquisa. Isso faz com que a gente não tenha muita agilidade. Mas o que já vem sendo mostrado em estudos similares em outros países, é que parece haver relação com o tipo sanguíneo. Então, dependendo do tipo sanguineo, que é determinado pelo genoma, terá maior ou menor suscetibilidade ao vírus. Saiu uma pesquisa na revista Sience sobre gens envolvidos na resposta ao interferon, ou seja, pessoas alterações nesses gens podem tornar a pessoa mais suscetíveis a doença. Mas aqui no Brasil ainda não começamos o estudo.

Como é a pesquisa para determinar quem está mais propenso a desenvolver a forma mais grave da Covid-19?

A ideia do projeto é pegar 600 pessoas que tiveram a doença na forma mais severa e mais 600 pessoas que tiveram a Civid-19 na forma mais leve. Então, sequenciar o genoma dessas pessoas. A partir daí comparar o que tem de comum entre as pessoas que tiveram a forma leve e que está menos frequente nas pessoas que tiveram a forma grave. Isso pode nos apontar gens que conferem resistência à doença.

Isso deve demorar?

Temos que coletar essas pessoas, fazer o sequenciamento, realizar a analise, … tudo isso leva um tempo, mas por enquanto o tempo que está levando é para a verba ser liberada.

Já são mais 140 mil mortes. Quando será que a ciência vai vir com a solução?

Pois é. O que não falta é paciente.

Quando chegarmos nesse ponto vamos pensar em medicina de precisão? No caso do coronavírus, vamos ter medicamentos específicos?

Sim. A ideia toda é essa. Quanto mais a gente entender a biologia do vírus e como interagimos com ele, melhor poderemos desenvolver medicamentos ou vacinas contra ele. Mas precisamos entender primeiro: como é que esse vírus funciona? Como funcionam todas as proteínas, os gens que ele tem, quando está dentro do corpo o que acontece com as células e como o nosso corpo responde ao vírus. Quanto melhor a gente conhecer essa interação, mais eficientes vão ser as terapias.

As vacinas mais eficazes são aquelas que ensinam o organismo a combater o coronavírus?

Exatamente. O nosso sistema imunológico é o nosso melhor amigo, só que às vezes ele é um pouco lento para reconhecer um inimigo, por exemplo, o novo coronavírus. Então, as vacinas ensinam o nosso sistema imunológico a identificá-lo como um inimigo e preparar nossa defesa para quando o primeiro vírus entrar no corpo, ser reconhecido como um inimigo, e que deve ser atacado.

Ao falarmos de toda a sua carreira, um dos pontos que mais intrigantes é sabermos geneticamente quando começa vida?

A pergunta mais fascinante que tem, e de uma forma conjunta, visa esclarecer, como é que aquela primeira célula que todos já fomos, a fusão do ovulo com o espermatozóide, como é que uma única célula consegue se multiplicar, ir se especializando de uma forma super organizada, para dar origem ao ser humano. Na natureza comentamos: Ah, que maravilha a metamorfose da borboleta… Que mistério, que incrível! Pensa nessa única célula virar uma pessoa. Como é que essa célula sabe fazer isso? Isso que é incrível! A célula sabe fazer isso porque ela segue uma série de instruções que estão em seu núcleo, que é o genoma daquele embrião. Então o genoma humano é uma receita que a natureza segue para aquela célula se transformar num indivíduo e aquele indivíduo funcionar a vida inteira. E temos várias formas de estudar isso, desde a medicina que vê a fisiologia, dos órgãos, da anatomia, até os geneticistas que estão querendo ver como esse corpo humano funciona gene a gene. Entender nos mínimos detalhes. Aí, todo o investimento no genoma do corpo humano.

Quanto avançou?

Muito! As primeiras conversas para se sequenciar o genoma humano datam de meados da década de 1980. Mas em 2003 terminou-se o sequenciamento do primeiro genoma humano. Para se ter uma ideia esse projeto demorou quase vinte anos para ser completo, com o custo de vários bilhões de dólares, o sequenciamento de um genoma humano. Essa tecnologia avançou tanto que hoje, por mil dólares, que pode sequenciar um genoma humano inteiro em 36 horas. Esse foi o salto tecnológico. Ter sequenciado o primeiro genoma humano foi importantíssimo, impactou a forma como fazemos pesquisa em genética humana, porque tivemos esse mapa disponível para usar. O que acontece que o genoma não pode ser idêntico, em duas pessoas. Porque se não essas pessoas são clones ou gêmeos univitelinos. Então a partir do momento que a gente dominou o que é um genoma humano, passamos para a próxima pergunta: O que é que difere entre o genoma de duas pessoas? O que faz as pessoas terem características diferentes. Não só da aparência, mas também de seu metabolismo, da sua saúde, da sua pré disposição a doença, da forma que respondemos a medicamentos.

Ah, por que há pessoas que engordam comendo menos que pessoas que são magras, isso?

Exatamente. Está tudo no genoma. Você tem ideia de quanto o genoma de duas pessoas é idêntico? Nós somos 99,9% idênticos, do ponto de vista da sequencia do genoma.

Então, o que falta é muito fácil da ciência descobrir.

Acontece que esse 0,1% de diferença que existe entre o genoma de duas pessoas, são responsáveis pelas características individuais das pessoas. Então o grande desafio da genética do século XXI é entendermos como essas variações, entre os genomas das pessoas, impactam na nossa característica e a nossa saúde.

Na década de 1990 discutia-se sobre clonagem. Isso foi superado?

Sim. Ninguém mais fala sobre clonagem de seres humanos.

Essa questão se tornou irrelevante por critérios científicos?

Sim, ficou claro. Além disso, se tornou um consenso internacional de que a clonagem não deve ser usada como forma de reprodução humana.

Ficamos na ovelha Dolly?

Na Dolly e outros bichos, gado, por exemplo. Mas humano não.

O que são células-tronco?

São células que tem a capacidade de se especializar em outro tipo de célula, com uma função mais especifica. Então, por exemplo, as células-tronco que estão em nossa medula óssea, são fabricas de sangue. Quando elas se dividem podem produzir todos os tipos de células que compõe o nosso sangue. A partir de uma célula se produz tipos diferentes de células.

É como se o carro quebrasse e no meio do caminho tivéssemos que arrumar?

Isso. A gente tem uma capacidade de alto regeneração. Acontece que essa capacidade, por exemplo, quando temos um corte na pele, as células-tronco de pele são ativadas e regeneram essa pele. Mas se há uma queimadura extensa ou um infarto em situações extremas, essas células-tronco tecido especifico não conseguem reparar aqueles danos. Elas não são suficientes para isso. Gostaríamos de conseguir produzir essas células-tronco em quantidade no laboratório para que elas conseguissem, por exemplo, regenerar um infarto. Para que a pessoa não precisasse fazer um transplante de coração.

Então está longe de ser como gostaríamos, certo? Doenças tratáveis com essa terapia.

Ah, sem dúvida. No inicio dos anos 2000 a gente achou que as células-tronco da medula óssea, que regeneram o sangue, por exemplo, se o paciente tem uma leucemia, pode-se destruir o sangue do paciente e fazer um transplante de medula óssea. Pegar a medula óssea de alguém saudável e colocar nesse individuo doente e regenerar o sangue, o sistema hamatopoiético do paciente. Nesse período achávamos que a medula óssea seria capaz de regenerar o coração, o cérebro, uma porção de órgãos. Ai que houve esse boom, e as células-tronco ficaram muito famosas. O que a gente viu é que as células da medula óssea não têm essa plasticidade, não tem essa capacidade de regenerar outros tecidos. Mas a gente sabe que existem outros tipos de células-tronco, por exemplo, as células-tronco embrionárias, que são capazes de se tornar qualquer tecido do nosso corpo. Então, a comunidade cientifica vem investindo muito no desenvolvimento de terapias a partir de células-tronco embrionárias.

Há quanto tempo existe esse investimento?

As primeiras linhagens foram publicadas em 1998. Atualmente existem ensaios clínicos, usando células embrionárias para tratar a degeneração macular, na retina, para lesão de medula óssea e diabetes. Mais recentemente começou-se um ensaio clínico para o tratamento de Parlkinson.

Tipos de paralisias?

Sim, lesões na medula espinhal. Mas isso tudo é ensaio clínico. Ainda não é nenhuma terapia comprovada. Porém, já saímos do camundongo e já tivemos resultados bons o suficiente para passarmos para testes em seres humanos.

O banco de células-tronco brasileiro está em nível para fazer os testes?

A gente tem. O governo Federal entre 2006 e 2010 fez um investimento muito grande na área de células-tronco no País. Então, temos grupos de cientistas com bastante conhecimento, estrutura para desenvolver isso aqui.

Que pesquisa a senhora está desenvolvendo com embriões?

Estamos usando essas células para o desenvolvimento de fármacos. Nosso laboratório está produzindo essas células, cardíacas, de vasos sanguineos, com o propósito de pesquisa básica, para entender como esses tecidos se formam no ser humano, e também para triagem de drogas para diferentes doenças.

Como funciona a logística desse trabalho?

Temos as células embrionárias crescendo na placa de laboratório, induzimos com diferentes reagentes que faz com elas se transformem em células do músculo cardíaco. Essas células começam até a se contrair, como um coração. Depois essas placas vão para outro grupo que faz esse tipo de triagem. Podemos usar essa modalidade para saber se uma droga nova apresenta algum tipo de toxicidade cardíaca. Como se faz isso? Primeiro se testa em modelo animal, se não for tóxica para o animal, passamos a testar em seres humanos. O que nós propomos que antes de se testar em seres humanos, os testes se dêem em células de coração humano, que são as células que a gente produz. Então, no laboratório, podemos ter três drogas que passaram nos testes em modelo animal, depois fazemos os testes nas células de coração. Se uma dessas drogas apresentarem toxicidade nas células, para por aí, nem chega numa pessoa.

Podemos clonar tecidos para pesquisa?

Sim. Conseguimos transformar uma célula de sangue em uma célula embrionária, por exemplo. Chamamos de células-tronco induzidas. Mas qual é a vantagem disso? Transformar essas células em células de neurônio, do fígado, do coração. Células idênticas as do paciente que doou. No caso da pesquisa com Parkinson foi feito assim.

Quais os países estão à frente, quando falamos de pesquisas com células-tronco?

Os EUA, a China, a China é impressionante! Lá o investimento em ciência virou uma política de longo prazo. O governo enviou muitas pessoas para se formarem na Europa e nos EUA. Ao mesmo tempo a China criou uma infraestrutura sensacional. Atualmente a China se tornou uma potência em ciências.

Como o Brasil vai sair da pandemia? Qual vai ser o saldo?

Primeiro, que a gente veja que a Ciência é fundamental em nossa vida. A responsabilidade social entre as pessoas, consciência de que vivemos em sociedade. Se pensarmos que devemos agir, cada um por si, a gente não vai resolver questões como essa.

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