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17/12/20

Saúde mental pós-covid: como lidar com a ansiedade?

 

Daniel Teixeira/Estadão

Assim que deixou o hospital depois de quase um mês de internação por 
covid-19, a dentista e atleta de crossfit Raquel Trevisi, de 38 anos, decidiu postar sua rotina de recuperação em seu perfil no Instagram. “Cada obstáculo que eu passo, eu mostro. Recebo muitas mensagens e isso me ajuda. É uma troca”. Isso além do apoio que recebeu da família, segundo ela, ajudou a evitar a depressão após a doença, embora não tenha escapado da ansiedade. Os seguidores saltaram de 14 para quase 38 mil, sinal de que o assunto é algo que interessa e afeta a muitos, sobretudo nesse momento de um novo aumento dos casos da doença no Brasil.

O caso de Raquel não é único. Um estudo da Universidade de Oxford, publicado recentemente na revista Lancet Psychiatry, observou que pessoas que tiveram covid-19 correm um risco maior de receber um diagnóstico de transtornos psiquiátricos como ansiedade, depressão, insônia e demência de 14 até 90 dias após a doença.

Mesmo com todo o histórico de atleta, Raquel, passou por maus momentos. Precisou ser intubada e hoje, passado três meses, ainda segue em recuperação para recuperar movimentos finos, algo fundamental em sua profissão. Moradora de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, decidiu montar o Projeto Com.Vida para ajudar outras pessoas que também tiveram a doença, com voluntários médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e nutricionistas, além de distribuir cestas básicas e kits de higiene.

“Graças a Deus eu tenho um suporte financeiro para me recuperar em casa, pagar médicos, tomar suplementos. Ainda no hospital, eu pensava em quem não têm condições financeiras. Como mandam uma pessoa para casa nessas condições?”, diz. “Ajudar o próximo tem me feito muito bem”, completa.

Enxergar a saída é algo fundamental, mesmo que em meio a pandemia ela pareça nebulosa. É esse trabalho que o psicólogo Felipe Geraldi, um dos idealizadores do Dr. Psico, plataforma que conecta profissionais e pacientes - que no começo da pandemia ofereceu atendimento on-line gratuito –tem feito com seus pacientes que, segundo ele, cresceram quase 100% desde que a vida e a rotina das pessoas foram diretamente afetadas pelo temor da covid-19. A ansiedade é uma queixa constante – tanto para quem teve e para quem não foi acometido pela doença. “Tínhamos nossas vidas e, em um piscar de olhos, tudo mudou. Ninguém se preparou para isso. Essa sensação de medo constante invadiu o psicológico das pessoas”, explica.

Para Geraldi, é importante deixar claro para a população a ideia de um futuro possível. “Ele é um dia de sol que vai chegar e se abrir de uma forma bonita depois de uma tempestade. Seremos novamente donos daquela alegria e liberdade de antes, mas será preciso atenção e cuidados, conosco e com os outros. Mostraremos para nossos filhos e netos que passamos por um momento difícil, mas de afeto e união”, diz.

A dona de casa Rica Todeschini, de 47 anos, foi diagnosticada há cerca de um mês com covid-19. Ela não precisou de internação, mas o marido sim, com 45% dos pulmões comprometidos. No hospital, enquanto esperava atendimento, viu muita gente se desesperar com o diagnóstico, mas tentou manter a calma. Em meio ao sentimento de incerteza, recebeu um abraço de uma enfermeira. “O clima é muito ruim, mas eu não tinha muito o que fazer se não tentar amenizar o medo, conversar com as outras pessoas que estavam lá”, diz.

Portadora de ansiedade há anos, Rica se sentiu insegura quando voltou para casa. As crises se confundiram com uma possível piora da doença. “Meu filho (13 anos) estava em casa e eu tinha medo de passar para ele. Ele estava inseguro, e eu não podia abraça-lo. Foi difícil”, conta.

Para ela o que funcionou foi um velho hobby: a costura. “Tenho um ateliê em casa. Comecei a costurar e, da janela desse quarto, conseguia conversar com o meu filho que estava no dele. Foi o que me acalmou”, conta, sobre os dias em que precisou ficar isolada.

Formar uma rede de apoio - assim como Raquel fez ao dividir sua história com seus seguidores, ou Rica, que buscou a companhia do filho, mesmo separada por uma janela - é essencial.

Ajudar um familiar ou um amigo que ficou testou positivo para a covid não é uma tarefa simples, porém, necessária. Se ele estiver em casa, ou, se internado, o contato for possível, mesmo que via chamadas de vídeo ou telefônica, tente levar alívio ao doente, tire o peso e a culpa – sim, contrair covid pode gerar esse sentimento.

“Converse sobre o tema com informações positivas e de qualidade. Seja um ponto de escuta do paciente que está em sofrimento. Coloque-se ao lado e no lugar dele. Diga ‘olha, estou fazendo tudo por você e tenho certeza que você faria o mesmo por mim’. Aproprie o familiar que essa unidade é sólida”, aconselha Geraldi.

Ao estabelecer esse elo, quem cuida poderá perceber se algum transtorno mental se instalou no doente que, a partir desse momento, precisará de ajuda especializada. “Deixe o familiar falar dos seus anseios, medos e dores na forma de um caminho aberto, livre. Não pergunte em excesso, pois isso pode gerar um stress desnecessário e pode se transformar em uma realidade psíquica dele se sentir que está muito mal. Crie um ambiente no qual o diálogo pode acontecer que tudo vem de forma mais natural”, diz o psicólogo.

Quarta onda

O levantamento da Universidade de Oxford analisou os prontuários médicos de mais de 69 milhões de pacientes nos Estados Unidos. Quase um em cada cinco dos recuperados (18%) sofreu algum psiquiátrico. Esse número é quase o dobro de pacientes com outras doenças, como gripes, infecções do trato respiratório e dermatológicas, pedras nos rins e na vesícula e grandes fraturas ósseas.

De acordo com os resultados do estudo, que, embora preliminares, como alerta seus autores, traz as implicações nos serviços clínicos, os distúrbios podem aparecer em função de um efeito direto no sistema nervoso central – a covid-19 tem sido vista com uma doença sistêmica -, do uso de medicações, do impacto psicológico com as consequências da infecção, do trauma de, eventualmente, ter que ficar em uma UTI, além de preocupações mais amplas com os desdobramentos da pandemia.

O psiquiatra Ary Gadelha, da Universidade Federal De São Paulo (Unifesp), é um dos coordenadores do Guia de Saúde Mental Pós-Pandemia Mental no Brasil, do Instituto de Ciências Integradas (INI), que aponta uma “pandemia paralela” que traz o aumento do sofrimento psicológico.

O documento divide as consequências da pandemia de covid-19 em quatro ondas: a primeira está relacionada à sobrecarga do sistema de saúde; a segunda aponta a diminuição dos recursos da saúde para o tratamento de outras doenças; a terceira fala na interrupção do tratamento de doenças crônicas; por fim, a quarta indica o aumento de transtornos mentais e trauma psicológico provocados diretamente pela doença, que vão persistir ainda por um bom tempo após a pandemia.

“Estamos em alerta para essa onda de transtornos mentais que envolve tanto a ação do vírus no sistema nervoso quanto o impacto psicológico das implicações da doença. Pedimos que as pessoas cuidem de sua saúde mental. E as que tiveram covid, tão logo se sintam mais tristes ou ansiosas, busquem a orientação de um psiquiatra ou psicólogo para que o caso seja avaliado”, diz o médico.

Gadelha também é um dos colaboradores do inquérito Coh-Fit, uma investigação sobre os efeitos do isolamento social associado à covid-19 na saúde física e mental que está sendo aplicado em 148 países, incluindo o Brasil. “É um questionário extenso que vai avaliar o quanto as pessoas percebem que a experiência da pandemia mudou seu estado mental. Um relatório preliminar – e outros estudos nacionais e internacionais apontam na mesma direção – mostra um impacto grande na saúde mental e isso só tende a aumentar, já que a mudança de hábito, a rotina interrompida e as implicações sociais e econômicas colocam as pessoas em risco”, diz.

Conforme já explicou o psiquiatra Ary Gadelha, a tristeza e ansiedade não podem ser ignoradas e, se persistentes, é preciso buscar ajuda médica. Porém, é importante que as pessoas cuidem de sua saúde mental ao longo da vida (veja dicas abaixo), comportamento que pode ser determinante nesse momento de pandemia. “Obviamente há sempre o que não controlamos. Mas, se as pessoas fizerem aquilo que está à disposição delas, é possível prevenir ou evitar um transtorno mental pós-covid”, diz Gadelha.

Fique atento aos sinais

O psiquiatra Ary Gadelha diz que é preciso ficar atento a determinados sinais para identificar os transtornos - em si mesmo ou em um familiar:

  • Ficar triste é normal, mas a tristeza persistente e intensa indica que algo está errado
  • Muitas pessoas deprimidas não ficam tristes, e sim irritadas
  • Ansiedade é um sinal de alerta

Cuide da sua saúde mental

O psicólogo Felipe Geraldi dá dicas para manter a saúde mental em dia, mesmo em tempos difíceis.

  • Preocupar-se é inerente ao ser humano. Aceite esse sentimento como parte de sua vida
  • Entenda o que você pode ou não controlar
  • Converse com as pessoas próximas sobre o que está acontecendo com você
  • Cuide o seu sono, da higiene e da alimentação
  • Não troque o dia pela noite
  • Evite o excesso de exposição a notícias
  • Converse com amigos e família por chamada de vídeo e não apenas por mensagens
  • Exercite-se
  • Faça meditação
  • Arrume a cama e tire o pijama, mesmo se for ficar em casa
  • Dedique-se a atividades que te tragam gratificação pessoal
  • Evite o consumo de álcool em excesso. É fácil perder o controle
  • Não faça a automedicação. Use ansiolíticos apenas com prescrição médica
  • Respeite a retomada das atividades, não exija demais de si mesmo. Cada um tem seu tempo
 

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