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10/02/21

 

Explante de silicone: mulheres agora querem tirar as próteses

Problemas causados pela ‘Síndrome Autoimune Induzida por Adjuvantes’ levaram muitas a desistirem de vez dos implantes

Sabrina Castro, com supervisão de Vivian Ortiz 

Problemas causados pela ‘Síndrome Autoimune Induzida por Adjuvantes’ levaram muitas a desistirem de vez dos implantes
Amanda Djehdian segurando as próteses mamárias recém-explantadas do seu corpo - Instagram/@amandadjehdian

Amanda Djehdian, que ficou famosa entre o grande público ao participar do ‘BBB 15’, surpreendeu seus fãs no final de dezembro passado, ao contar - toda feliz - ter feito uma cirurgia para retirar as próteses de 340ml silicone nos seios, que ostentava desde 2006. “Há 14 anos por vaidade, pressão e insegurança coloquei algo que me disseram que era super seguro e [que] não me faria mal… Mal sabia a maldade que estava fazendo com meu corpo no momento que tomei a decisão”, contou a empresária em seu Instagram.

Em 2014, ela começou a sentir dores terríveis, que a impediam de encontrar posições para dormir ou mesmo realizar atividades do dia a dia. Amanda, porém, só descobriu a origem dos sintomas no ano passado: era uma contratura capsular de nível 3. Apesar de ser normal que o corpo crie uma barreira de proteção ao redor da prótese, essa membrana pode inflamar e enrijecer, causando dor. Contudo, esses não eram os únicos sintomas. 

Dores de cabeça, fadiga, perdas de memória, névoa cerebral, moscas-volantes na visão e insônia também compunham seu quadro. Tudo causado pela ‘Autoimmune Syndrome Induced by Adjuvants’ (Asia), ou Síndrome Autoimune Induzida por Adjuvantes, em português. “Todos os sintomas descritos seriam reações do sistema imunológico a um corpo estranho”, explica a cirurgiã plástica Bethânia Cansanção. A Asia é popularmente conhecida como ‘doença do silicone’, mas pode estar relacionada a qualquer corpo estranho, como um DIU.

TERMO DE RESPONSABILIDADE
Segundo a cirurgiã plástica, apesar da doença ainda não ter comprovação científica, existem muitos relatos sobre o assunto. No site da FDA (Food and Drug Administration), agência regulatória federal dos Estados Unidos (equivalente à Anvisa do Brasil), isso está mais explicado: “Devido à falta de dados de segurança de longo prazo, ainda estamos aprendendo sobre os problemas de saúde que resultam dos implantes mamários. Até o momento, milhares de mulheres relataram ao FDA ou aos pesquisadores que experimentaram sérios problemas de saúde que vários estudos relacionam aos implantes mamários”, consta.

No mesmo documento, que é uma espécie de Termo de Responsabilidade entregue a quem opta pelo implante, a agência também fala sobre problemas como:

  • Vazamento de metais pesados das próteses, que podem gerar complicações na saúde;
  • Alojamento de gel de silicone em tecidos e órgãos, como fígado e pulmões, devido à possível ruptura das próteses;
  • Dificuldade no diagnóstico de um câncer de mama, o que pode postergar o tratamento;
  • Necessidade de acompanhamento e troca das próteses;
  • Possível interferência na amamentação.

REDES SOCIAIS
Antes de entender qual realmente era seu problema, Amanda se queixava de dores no Instagram. Com isso, dezenas de seguidores indicaram uma conta que poderia ajudá-la: a @explantedesilicone. Quem administra o perfil é Larissa de Almeida, com apoio de algumas amigas. Todas são explantadas. 

“Tive mais de 20 sintomas da Asia”, conta ela, em entrevista para AnaMaria Digital. “Depois que fiz o explante, em fevereiro de 2019, eles foram embora gradativamente. Seis meses depois, todos foram completamente abstraídos do meu corpo. A minha história com o explante é de empoderamento, porque, a partir do momento que me dei conta que isso acometia diversas outras mulheres, decidi gravar vídeos e criar a página”, conta. A influenciadora também ansiava em ver imagens de antes e depois da cirurgia, pouco divulgadas na época

Seu interesse no assunto, aliás, surgiu muito antes da criação do perfil na rede social. Foi a partir de um comentário em uma publicação no Facebook que ela descobriu sobre a Asia e, por causa disso, entrou em um grupo em que mulheres compartilhavam suas experiências com a doença e o explante. Com base nesses relatos, a administradora optou por remover suas próteses.

Acredito que consegui salvar muitas mulheres com a minha história, tanto aquelas que desejavam colocar próteses e desistiram, como aquelas que descobriram, pelas informações que coloco no perfil, que estavam doentes por causa do silicone”, ressalta. As informações publicadas são de artigos científicos do mundo inteiro, compilados e simplificados por ela e as amigas. Dessa forma, os dados ficam mais acessíveis.

Nesta trajetória de dois anos, a fundadora da página recebeu muitos relatos marcantes. Um deles foi de Diane, que tinha o sonho de amamentar o filho e, depois que realizou o explante, conseguiu. Larissa também acompanhou a história de Letícia Franco, oftalmologista que ficou famosa quando divulgou a pretensão de ser submetida a eutanásia na Suíça, porque não queria continuar sentindo as fortes dores decorrentes da Asia, que persistiram mesmo após o explante. 

A médica chegou a viajar pelo Brasil divulgando a possibilidade de se fazer um exame para saber se a pessoa tem propensão de desenvolver a Síndrome antes mesmo de colocar as próteses, mas morreu no ano passado, depois de nove anos de luta.

NA PRÁTICA
Wendell Uguetto
, cirurgião plástico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo (SP), conta que nunca fez tantos explantes como em 2020. “Há 10 anos, tivemos uma moda de mamas grandes. Agora, é o contrário. Essa mudança fez com que muitas pacientes procurassem pelo procedimento. Também havia casos de linfomas de células T [um grupo de tumores de células de defesa, que se reúnem devido à inflamação na cápsula ao redor da prótese] e de síndromes autoimunes”, ressalta.

O procedimento é feito pela mesma incisão usada no implante. O médico faz o corte, localiza a prótese e a retira. Em alguns casos, é necessária a remoção da cápsula que envolve o silicone - o 'explante em bloco'. Também existem alternativas para reorganizar a mama esteticamente. Em situações de pele flácida, a paciente necessita de uma mamoplastia, cirurgia que retira o resto de pele dos seios e levanta as mamas, o que resulta em uma cicatriz em volta da auréola. 

Alguns cirurgiões optam pela lipoenxertia - ou seja, inserir gordura  no espaço onde ficava a prótese de silicone. Para isso, a pessoa precisa ter passado por uma lipoaspiração. “A questão é que temos um limite de gordura que podemos colocar durante a cirurgia, então, às vezes, o aumento não é da dimensão que a paciente deseja, ou de um formato adequado”, explica Wendell.

Com acompanhamento médico, a ex-BBB fez o explante e depois uma mastopexia com lipoenxertia. Um mês depois, atualizou os fãs sobre a nova vida. “Livre de dores, de choros, de sintomas que estavam acabando com a minha saúde… hoje, mesmo que recente o explante, já noto muitas melhoras: respiro melhor, minha disposição está surreal, não tive uma enxaqueca, meu sono é maravilhoso, meu corpo parece que desinchou, minha fisionomia mudou, mais leve, parece que estou mais nova…”, conta.

Conteúdo: Revista Ana Maria

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