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25/04/21

Como lidar com a perda de um ente querido para a Covid

Pode ser uma imagem de rosa e céu


A psicóloga clínica, neuropsicóloga e hipnoterapeuta, Aline Tanaka enfatiza que a morte por essa doença é afetivamente desamparada, não há ninguém para segurar a mão, e, se tiver, será de luva
REGIÃO - OSLAINE SILVA de O Imparcial de Presidente Prudente

Se perder um ente querido já era difícil em “tempos normais”, a pandemia do novo coronavírus deixou o processo de despedida ainda mais doloroso. Isso porque devido às normas sanitárias para a prevenção da doença, as funerárias suspenderam a realização de velórios nos casos em que a vítima faleceu com suspeita ou confirmação da Covid-19. Então aquele último momento de despedidas não mais é possível.

A psicóloga clínica, neuropsicóloga e hipnoterapeuta, Aline Tanaka Campos Filitto enfatiza que a morte pela Covid-19 é uma morte afetivamente desamparada. Do lado da vítima, que até bem pouco tempo antes não tinha nenhuma perspectiva imediata de morte, não há ninguém para segurar a mão, e, se tiver, será de luva, as relações se tornam muito frias e muitas vezes sem poder lidar de forma afetuosa. Para quem fica, a perda repentina sem a despedida traz complicações para elaboração desse luto. Pois nosso cérebro precisa de mecanismos, vivencias e do concreto para entender a partida.

“Quando se tem um ritual [velório, sepultamento], ali é o espaço para o individuo expressar sua dor, externalizar seus sentimentos e não reprimi-los, recebendo o apoio social e são importantes na construção de sentido da perda e para o processo de recuperação do luto. Na impossibilidade de sua realização nas formas convencionais, uma sugestão seria elaborar algum ritual que faça sentido para familiares e amigos próximos e que possa ser realizado remotamente. Pode ajudar”, sugere a psicóloga.

Uma missa virtual, pode ser um caminho, segundo Aline, assim como o uso das mídias para alguma homenagem póstuma, marcando a despedida e o apoio social. Mas, ela lembra que o processo de perda é individual e cada um vai reagir de formas diferentes, ficando evidenciado que a perda pela Covid-19 é um risco de luto que pode ser de ordem traumática.

AS REAÇÕES SÃO DIVERSAS
Como a própria palavra já diz, Aline explica que cada indivíduo tem sua individualidade, assim, cuidados e caminhos seguidos por um podem não valer para outro. Logo é preciso descobrir o que faz mais sentido para você e tentar elaborar algo que lhe traga um alívio momentâneo para esse momento, para só após conseguir uma elaboração e uma superação desse fato. O apoio a quem está de luto é fundamental, mesmo que à distância. Se é parente ou amigo da pessoa próxima ao falecido, ligue para saber como ela está e ofereça acolhimento.

“Não a deixe sozinha em sua dor, a menos, é claro, que ela queira, o que você deve respeitar. Além do sofrimento da perda, esta pessoa deve estar isolada pelo risco da doença [se já não estiver doente] e talvez sofrendo o estigma da sociedade, que, consciente [pelo medo de contrair o vírus] ou inconscientemente [para não entrar em contato com a lembrança do risco iminente, para todos], pode se afastar neste momento”, expõe.

PRESTE ATENÇÃO
De acordo com Aline, a experiência de não estar junto com o ente querido em seus últimos dias ou o pensamento de que algo poderia ter sido feito de forma diferente pode gerar sentimentos de culpa entre as pessoas próximas. Segundo ela, no luto, é normal a pessoa passar por uma série de reações ao sofrimento, que vão do esgotamento físico e emocional a dificuldades no sono, na alimentação e sensação de perda de sentido da vida.

“Respeite estas reações e o seu tempo, que é particular para cada um. Mas identifique se o volume de sofrimento não ceder após longo período e isto estiver atrapalhando a continuidade das funções da vida, buscando, a ajuda especializada de um psicólogo, para tentar trabalhar a impotência da ocasião e entender que o que se deixou de fazer foi por impossibilidade e não por escolha”, orienta a profissional.

Uma sugestão, conforme a especialista é tentar, na medida do possível, lembrar-se das vivências positivas da relação e do amor envolvido, de forma que eles se sobreponham aos sentimentos e lembranças negativos dos últimos momentos, assim fazendo com que seu cérebro condicione o que é positivo.

REDE DE APOIO,
AMIGOS, FAMÍLIA
Com o número de infectados crescendo a cada dia, a pandemia de Covid-19 tem causado medo e muitas vezes prejudicado a saúde mental das pessoas em isolamento social. Além de lidar com o risco da doença, muitas pessoas têm ficado depressivas, amedrontadas e ansiosas. Todos os dias, os números atualizados de vítimas do coronavírus têm aumentado o medo da morte e o medo de perder as pessoas queridas, tudo isso é agravado ainda pela ausência de um “adeus” convencional, pois muitas pessoas não podem realizar velórios, rituais fúnebres de acordo com sua fé e cultura, prejudicando o processo de luto de cada um. Por isso, é importante nesses casos que a pessoa tenha uma rede de apoio, então que amigos e familiares procurem estar por perto das maneiras que forem possíveis: ligando, conversando... “outra maneira legal para lidar com o luto é fazer um diário de ‘sonhos’, prestar atenção nos sonhos, porque eles nos ajudam a processar as dificuldades que a gente enfrenta. Frisando também estar em contato com pessoas que considere mais positivas, para ajudar nesse processo”, conclui Aline.

Aline aconselha estar com pessoas que considere mais positivas, para ajudar nesse processo

O que é o luto? Por que dói tanto?
A psicóloga clínica e especialista em Educação e Terapia de Família e Casal, Alcione Candeloro Ricci explica que o luto é um processo de extrema dor, dói muito porque é a despedida de alguém que não se terá mais contato com ele, não se verá mais, não terá mais a sua companhia em sua vida. Segundo ela, todo processo de luto quanto mais prolongado for mais a pessoa vai conseguir elaborá-lo.

Ela comenta que costuma dizer que há tipos de luto. Quando por um tipo de acidente que ceifa a vida de uma forma rápida, trágica é muito difícil porque até o dia de ontem a pessoa estava ali e de repente se foi e nunca mais a verá.

“Nesse momento entra toda a questão do funeral, do velar, o contato com aquele corpo inanimado, onde absorve dados concretos de que a morte existiu. Mas o choque dificulta a elaboração do luto, porque passa por etapas. Eu digo sempre que o luto não é você deixar de sentir dor, é quando seu coração para de sangrar. Você se lembra da pessoa, sente saudade, mas o coração não sangra mais. É um processo”, frisa. Quando se perde alguém por uma doença que vai se arrastando, Alcione destaca que embora seja muito doloroso ver aquele ente querido sofrer, o luto vai se elaborando lento e gradativamente porque a pessoa vai perdendo a outra aos poucos. É como se ela sem perceber fosse se preparando.

Perde-se o convívio porque o ente querido passa muito tempo hospitalizado, às vezes perde a consciência, então é como se você fosse se afastando de forma gradual e a elaboração do luto nessa situação não é simples, mas é um pouco mais rápida.

“O pior luto que existe é pelo suicídio, porque é o inesperado associado ao outro não querer viver. Fica sempre aquela questão internalizada: o que eu fiz? Qual o valor eu tinha para aquela pessoa? É um luto extremamente sofrido. E agora, com a Covid entra outro agravante, além de ser inesperada, mesmo em situações em que a pessoa passa muito tempo internada não é possível ter contato com ela e não se tem o tempo depois para chorar, velar, lembrar de momentos vividos com aquela pessoa e comentar com os amigos ali presentes. Ou seja, é ainda mais difícil a elaboração desse luto. Porque é uma soma de todos os outros lutos”, destaca a psicóloga.

Com uma fé inabalável, leiam abaixo o texto de uma mãe que viu a vida de seu esposo por um fio e a de seu filho ceifada pela Covid. Mas a sua fé é algo tão imensurável que faz chorar até quem deveria este texto escrever com total imparcialidade.

Alcione diz que o luto é um processo de extrema dor porque é a despedida de alguém



“Eu acredito que tudo o que acontece é providência de Deus”

Sou Marilúcia Verderramos Pinheiro Tonon, mãe do João Paulo, filho amado que partiu para a casa do Pai.

Eu acredito que tudo o que acontece é providência de Deus. Sou mãe e como mãe uma leoa para defender e querer o melhor para o meu filho. Creio que Deus veio me preparando ao longo dos últimos meses para suportar tamanha dor.

Enquanto meu filho estava internado, orava sem cessar pela cura, pelo restabelecimento da sua saúde e a volta para casa, para o nosso convívio. O que não imaginava é que a volta para casa era a volta dele para o Pai!

Tem uma música que diz assim: “Eu te levantarei, restituirei tuas forças e te atrairei para mim e te darei novas vestes, filho amado”... E essa canção embalava os nossos dias, acreditando na cura e na volta dele para casa.

Mas Deus estava me falando: “Eu o quero para mim”. E assim passamos os dias louvando e bendizendo a Deus pela VIDA.

E quando veio a notícia do seu falecimento, meu esposo, João Batista, e eu louvamos e bendizemos ao Nosso Deus por tamanha Graça de ter-nos dado o João Paulo para o criarmos, amá-lo e educá-lo.

O DEUS QUE DÁ A VIDA, O QUER DE VOLTA.

O que me move desde então é fazer tudo o que agrada a Deus, meu Senhor e Salvador e ao meu filho.

Se fui leoa quando estava aos meus cuidados, sou muito mais agora para que ele esteja sempre nos braços do Pai. Não posso deixar de agradecer aos familiares, amigos e a comunidade de Santo Anastácio, na pessoa do padre Lindolpho, que incansavelmente oraram por nós.

Quero também agradecer a todos os profissionais da Santa Casa de Presidente Prudente pelo carinho, doação e profissionalismo com que cuidaram do meu filho, e tenho a certeza que é assim com todos os pacientes. Que Deus na sua infinita misericórdia os abençoe.

EU NÃO SINTO NEM O BALANÇO DAS ÁGUAS, TAL É O SEU CARINHO MEU SENHOR E MEU DEUS.

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