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05/04/21

 

Lima Duarte relembra paixão por Maitê Proença e comenta sobre vida amorosa: 'Acho que nunca nenhuma mulher me amou'



Leonardo Ribeiro

''Eu sou mesmo um contador de histórias'', diz Lima Duarte, entre risos, ao ouvir que tem feito sucesso nas redes sociais. Semanalmente, no Instagram, o ator, de 91 anos, grava vídeos relatando bastidores das novelas feitas em seus mais de 70 anos de carreira, cita causos da vida privada, dá dicas de séries e livros e sempre arruma tempo para recitar Fernando Pessoa ou Guimarães Rosa.

— Meus netos fazem tudo, eu só falo. Conto porque tem coisas que vi ou vivi, que podem ser interessantes para a moçada. Só que não tenho a menor ideia de como funciona essa web. Vejo graça em algumas coisas, mas a verdade é que tenho um imenso pavor do virtual — diz o veterano.

As gravações ocorrem no sítio em Indaiatuba, no interior de São Paulo, moradia do artista. O cenário varia entre a sala, que funciona como um museu particular (onde estão desde cartazes de filmes que fez até roupas de personagens icônicos), e o jardim, próximo aos passarinhos que gosta de alimentar. E Lima se distrai com tudo isso enquanto se prepara para começar a gravar, assim que possível, a segunda temporada de “Aruanas”, série do Globoplay.

— Estou preso nesse paraíso há um ano e não saio para nada. Ouço música e leio o dia todo. Também vejo novelas antigas. Gosto porque me lembro do que aconteceu além das cenas. Você não queira saber o que é, ou melhor, o que eram os Estúdios Globo. Orgulhos, egos, ódios, amores... — suspira.

É nesse espírito que o mineiro vibra com a reprise de "O salvador da pátria" (1989), no canal Viva, a partir de 12 de abril. Lima Duarte interpretou o boia-fria Sassá Mutema na trama que tinha um fundo político no mesmo momento em que o país voltava a ter eleições diretas para presidente. O papel foi até comparado a Lula.

— É um personagem que merece uma atenção um “tiquinho” maior. Agora é o agronegócio, mas, na minha época, era o pequeno negócio (risos). Plantava o que eu gostaria de comer. Não tinha essas pendengas de Brasília. E a novela falava desse momento de transição do país. Sassá era um jardineiro que tocava nas flores e elas vicejavam. Virou político, isso se perdeu. Também foi um homem que não sabia ler nem escrever e amou errado a professorinha (vivida por Maitê Proença). É uma história linda.

Além dele, Lima gosta de destacar outros papéis que tocam em discussões políticas, como Zeca Diabo, de “O bem-amado” (1973); Sinhozinho Malta, de “Roque Santeiro” (1985), entre tantos outros. Nos vídeos, fala com carinho da amizade com o autor Dias Gomes e das críticas inteligentes que ele fazia. Foram parceiros no Partido Comunista Brasileiro, na década de 1950. Na juventude, queriam denunciar as mazelas do mundo.

— Sinto falta dos meus amigos. Tantos já se foram... Ao mesmo tempo, não me lembro mais deles aqui.

Por isso, não é de se estranhar que o ator ironize as posturas do atual presidente do Brasil. Principalmente em relação às vacinas.

— Penso nos netos, nos filhos. O que tem acontecido conosco? Pragas, tragédias, vírus, a presidência… Nossa Senhora, quantas bobagens e mentiras temos visto! Sem contar a grosseria brutal. O homem (Jair Bolsonaro) falou que a vacina da China não presta. Mas eu estou me sentindo muito bem vacinado. E eu amo a sabedoria oriental — diz o artista, que já tomou as duas doses que previnem contra o coronavírus.

Novela cancelada pela censura

"Em 1975, a primeira versão de 'Roque Santeiro' foi proibida no dia que iria ao ar, devido ao AI-5 (um duro decreto da ditadura militar). No dia seguinte, tivemos uma reunião na Globo, e Boni, o diretor, disse: ‘Estão todos demitidos... A não ser que me preparem uma novela em 15 dias’. Eu não podia ficar desempregado, tinha a escola das meninas para pagar. Todo mundo topou. Janete Clair, que era casada com Dias Gomes, entregou a sinopse de 'Pecado capital'. E adaptamos. Mas Dias, que estava louco da vida com a sua novela cancelada, me fez um pedido: ‘Coloque no seu novo personagem um pouco de Sinhozinho Malta’. Atendi o pedido. Na primeira cena como Salviano Lisboa, ele aparece na fábrica com os funcionários cantando o hino, uma coisa meio fascista. E isso passou pela censura".

Recusa de papel após o 11 de setembro de 2001

“Onde você estava quando o mundo acabou de novo? Eu estava no Rio, em um hotel, porque tinha uma reunião para fazer a novela 'O clone'. Quando vi a cena do atentado, as Torres Gêmeas caindo, fumaça por todos os lados, fiquei espantado. Decidi que não faria a novela. Tive medo de os terroristas me pegarem. Os diretores tentaram me tranquilizar, porque era uma novela romântica. Foi bobagem minha, a novela foi um sucesso. Mas não fiz”.

O envolvimento com Maitê Proença

O romance de "O salvador da pátria" atravessou a tela da TV e ganhou a vida real. Lima e Maitê Proença tiveram um breve romance, dito por ele, negado por ela. Em entrevistas, a atriz cita o carinho e revela ter encontrado no colega um apoio no momento em que vivia a doença do pai. “Maitê deve ter amado o Sassá Mutema. Nós brincamos, nos divertimos, mas nunca mais a vi. A vida nos levou para outros cantos, mas torço sempre para ela ser feliz”, diz. O ator, que se casou três vezes, é econômico em relação a outras paqueras. “Sempre falava para as meninas terem cuidado comigo porque sou de Áries com ascendente em Escorpião, mas não entendo de Astrologia (risos). Acho que nunca nenhuma mulher me amou. Eu não me amo. Amo meus personagens”.

Lembrança que faz chorar

Nessa de emendar histórias, a voz de Lima só fica embargada quando é convidado a citar a primeira memória que tem da vida. "Minha mãe era epiléptica. Aos 7 anos, ficava na cozinha, de chão terra, ao lado dela. Uma vez, ela desmaiou e eu, chorando, tentei erguê-la. Naquele tempo, não se sabia que era uma lesão cerebral. Falava-se que a pessoa teve um 'acesso'. Esse termo ainda me intriga. Acesso ao diabo, a alma, ao cérebro? Isso é muito forte para mim até hoje. São situações como essa que formaram a minha primeira infância".

fonte:https://extra.globo.com/

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