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15/07/21

É #FAKE que teste de anticorpos comprova que vacinas contra Covid-19 não funcionam

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e texto que diz "FAKE"

— Foto: Reprodução

Vídeos com essa alegação têm se espalhado pela web. Especialistas explicam que teste mostra apenas um aspecto da resposta do organismo à vacina. Entidades corroboram posição e dizem que mensagem que tem sido disseminada é falsa.
Por Roney Domingos, G1
Circulam pelas redes sociais diversos vídeos em que são exibidos testes de anticorpos pós-imunização com a alegação de que eles comprovam a ineficácia das vacinas contra a Covid-19. É #FAKE.
Em alguns vídeos, as pessoas afirmam ter tomado a vacina Coronavac. Procurado pelo G1, o Instituto Butantan esclarece que a eficácia da Coronavac foi comprovada pelos testes clínicos realizados com 12.500 voluntários e que embasaram a aprovação de uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão do governo federal e, mais recentemente, pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS).
O G1 ouviu Flávio Fonseca, virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, a médica epidemiologista Luana Araújo, mestre em saúde pública pela Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg e autora do blog des-infectando, e o médico Fabiano Ramos, chefe do Serviço de Infectologia do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e líder do estudo com a Coronavac no estado. Eles deixam claro que o teste não é eficaz para medir a eficácia da vacina e que tais mensagens alardeadas nos vídeos são falsas.
"A detecção de anticorpos neutralizantes não é uma medida trivial. Já existem alguns kits comerciais disponíveis, mas não são todos os laboratórios clínicos que têm disponibilidade para fazer esse teste. Além disso, há uma discussão grande em relação à consideração de que anticorpos neutralizantes são, realmente, correlatos de proteção precisos. Então, há uma discussão em andamento, que considera que as vacinas não dependem única e exclusivamente de correlatos de anticorpos neutralizantes. Há outros fatores envolvidos na proteção vacinal, como a resposta de anticorpos não neutralizantes e de células T, chamada resposta celular, que é gerada também quando uma vacina dessa natureza é dada. Então, a proteção é o conjunto desses diferentes braços do sistema imunológico e a ausência de um desses braços não significa que a pessoa não está protegida", diz Fonseca.
"A despeito dessas observações, já foi realmente demonstrado que algumas das vacinas, entre elas a Coronavac, quando as pessoas medem a quantidade de anticorpos neutralizantes, esse título de anticorpos neutralizantes nas pessoas vacinadas não é alto. E varia, obviamente, de pessoa para pessoa", diz. "Esses 10% [apresentados em um dos vídeos], título de 1 para 10, que é a medida que a gente normalmente fala, é um título baixo, mas ainda ainda assim é um título de anticorpos neutralizantes. E como eu falei antes, apesar de ser um título baixo, não significa que a pessoa não está protegida, porque existem outros aspectos da resposta imune, que também são protetores. E já está demonstrado que a vacina, mesmo a Coronavac, é eficaz. Ela tem uma eficácia principalmente na progressão contra a doença grave e óbito, senão tanta proteção contra a infecção", complementa.
Para Luana Araújo, "a mensagem é uma mistura de uma ignorância imunológica absoluta com enorme desserviço à comunidade". Ela explica que a resposta imunológica se dá em dois grandes braços.
"O primeiro é o braço da produção de anticorpos e é isso que esse exame vê. Na verdade, ele não vê a produção de anticorpos, ele percebe os anticorpos circulantes no nosso sangue. Só que isso é só uma parte da nossa resposta imunológica. A outra parte da resposta imunológica se dá pelas células de defesa que aprendem a identificar aquele micro-organismo invasor e passam o resto da vida ali atentas à eventual presença desse micro-organismo. E aí, uma vez que elas detectam a presença desse micro-organismo, que entra na gente, elas conseguem não só fazer essa identificação como elas conseguem mobilizar as outras células de defesa para identificação e para ataque a esse micro-organismo enquanto também mobilizam aquelas células que voltam a produzir anticorpos. E aí esses anticorpos voltam a ser, portanto, identificados nesses exames de sangue."
"Então, o que que acontece quando alguém faz uma sorologia pós-vacinal? Ela está vendo uma parte pequena da nossa resposta imunológica. Ela não está vendo a resposta como um todo. Por isso que esse teste não deve ser feito. Ele só dá uma informação parcial e bastante enviesada da nossa resposta imunológica. A segunda coisa é que esse exame também não deve ser feito, porque mesmo que ele venha positivo, ele não consegue identificar se isso, se essa positividade, é reativa à resposta imunológica vacinal ou se nesse meio tempo houve uma infecção assintomática que fez com que o organismo produzisse novamente os anticorpos. Então, é uma besteira em vários níveis o que é propagado nesses vídeos. É um desserviço à comunidade e isso devia ter uma responsabilização", complementa.
Uma das pessoas que têm feito a alegação falsa na web é, inclusive, um médico.
"Os laboratórios que têm realizado esses exames de anticorpos neutralizantes têm 'vendido' esse exame como se ele pudesse demonstrar se a pessoa está protegida ou não contra o coronavírus pós-vacina. E isso não é verdade", diz o médico Fabiano Ramos.
Segundo ele, tem sido observado que o principal mecanismo de defesa do nosso corpo induzido pelas vacinas não é a produção de anticorpos. Então, diz, esses exames que detectam anticorpos bem específicos, anti-proteína S, não demonstram em nada a imunidade induzida pela vacina Coronavac. "E, da mesma forma, para as outras vacinas esse exame pode não detectar tanto anticorpos induzidos pelas outras vacinas quanto os outros mecanismos, especialmente, de imunidade celular, que são coisas que a gente não consegue identificar, a gente não consegue quantificar em resultados convencionais de laboratório."
Por esses motivos, diz Ramos, esse resultado não expressa em nada a proteção da vacina e por esses motivos o próprio Ministério da Saúde e as sociedades médicas não indicam a realização de exame pós-vacina, seja Coronavac ou qualquer outra, para avaliar a produção de anticorpos e, consequentemente, imaginar que possa se estar protegido ou não. "Mesmo pessoas que têm anticorpos identificados no sangue pós-vacina ou mesmo pós-doença podem adquirir Covid-19. Então, essa identificação de anticorpos em sangue periférico, em exames laboratoriais, não demonstra nem se a vacina está funcionando nem uma proteção contra uma nova infecção."
A posição dos especialistas é corroborada por entidades que acompanham o tema.
Em março, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) publicou uma nota em que não recomenda a realização de sorologia para avaliar resposta imunológica às vacinas. Segundo a entidade, os resultados destes testes "não traduzem a situação individual de proteção".
"Os estudos de avaliação de eficácia vacinal baseados em testes sorológicos têm demonstrado grandes variações em diferentes cenários epidemiológicos frente às diferentes vacinas, complicando ainda mais a interpretação dos resultados de mensuração de anticorpos neutralizantes [...]. Sabemos que a resposta imune desenvolvida pela vacinação não depende apenas de anticorpos neutralizantes", alerta a SBIm.
A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) destaca, em nota, que, com a chegada das vacinas e o início da imunização ao redor do mundo, pesquisadores e laboratórios passaram a realizar os testes sorológicos também para investigar a resposta imune de cada indivíduo à vacinação. Nesse contexto, foram desenvolvidos novos testes sorológicos: um grupo busca a identificação do bloqueio da ligação da proteína spike às células do doente e é denominado teste de anticorpos neutralizantes; outro identifica diretamente anticorpos gerados contra a proteína spike.
"Estudos clínicos realizados com esses testes mostram que nem todo indivíduo vacinado apresenta soropositividade. Mas isso não significa que ele necessariamente não está protegido. O que vem ocorrendo, e pode ser notado pelos pesquisadores, é que nem sempre o teste é capaz de detectar exatamente o anticorpo que foi gerado pelo paciente. Além disso, o anticorpo não é a única fonte de defesa do organismo, que conta, também, com os linfócitos T, inacessíveis aos testes sorológicos", diz a nota.
Ainda segundo a Abramed, algumas diretrizes precisam ser bem compreendidas. Ainda que toda informação possa ser relevante nesse momento, a conduta de proteção indicada hoje não deve ser, em hipótese alguma, modificada. Isso significa que tendo um resultado positivo ou negativo na pesquisa de anticorpos neutralizantes, o indivíduo deve permanecer utilizando máscara, realizando os processos adequados de higiene e cumprindo o distanciamento social. Não há, até o momento, qualquer indicação de reforço vacinal ou mudança do tipo de vacina.

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