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26/04/21

 

Quase metade dos pacientes tem menos de 60 anos na maior UTI da doença no país

No Hospital Ronaldo Gazolla, há pacientes graves com 20, 30 e 40 anos, sem comorbidade
No Hospital Ronaldo Gazolla, há pacientes graves com 20, 30 e 40 anos, sem comorbidade Foto: Márcia Foletto / Márcia Foletto
Ana Lucia Azevedo  / Foto: Márcia Foletto / Márcia Foletto

Na maior UTI de Covid-19 do Brasil, a do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, Zona Norte do Rio, é possível ver com nitidez a face rejuvenescida da pandemia. Muitas vezes, é a de um jovem obeso. Mas nem sempre. Há rostos de 20, 30, 40 anos, sem comorbidade ou motivo detectável que os tenha feito adoecer tão gravemente, numa crise sanitária que desafia a medicina.

No hospital de referência da doença, onde chega um terço dos internados com Covid-19 na Rede SUS no estado, todos os pacientes são muito graves. Na última quarta-feira, 94% dos 420 leitos (225 de UTI e 195 de enfermaria) estavam ocupados. E 44,50% dos internados tinham menos de 60 anos.

Graças a um banco de dados criado em 15 de janeiro, com informações sobre todos os 8.902 pacientes de Covid-19 que o Gazolla já atendeu, o hospital da Zona Norte é um farol da evolução da pandemia, que permite traçar um retrato da Covid-19 à medida que ela se espalha e se modifica no país.

O diretor do hospital, Roberto Rangel, diz que a partir de março a gravidade dos casos aumentou, o número de doentes jovens cresceu e o de idosos, caiu. Este último indicador é reflexo da vacinação; o anterior é reflexo, certamente, de maior exposição e, possivelmente, da presença da variante P1 do Sars-CoV-2.

— A ideia de que o jovem deveria se proteger para evitar que seus avós e pais adoecessem é passado. Ele deve se proteger para salvar a si mesmo, porque seus pais e avós estarão vacinados e é ele quem vai adoecer e, em alguns casos, até morrer — afirma Rangel.

No Hospital Ronaldo Gazolla, há pacientes graves com 20, 30 e 40 anos, sem comorbidades Foto: Márcia Foletto

A faixa dos 40 aos 59 anos é a que registra o maior aumento percentual de mortes. Era de 15,7% em janeiro e está em 30,4% em abril.

Um dos dados mostra que 5,2% das mortes são de pessoas abaixo de 39 anos. É um percentual ainda mais significativo, porque pessoas nessa faixa etária têm, em tese, um organismo muito mais capaz de resistir do que o de um idoso, ressalta Rangel:

— É um percentual muito alto para pessoas tão novas. A juventude não salva mais da Covid-19.

De acordo com dados da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), no mês de março de 2021 as pessoas com até 40 anos somaram 52% das internações em UTIs do Brasil e 58% dos que necessitaram fazer uso de ventilação mecânica.

A mudança de perfil da pandemia é evidente na faixa dos 80 aos 89 anos, dos primeiros a serem vacinados. O percentual de mortes caiu de 20,7% em fevereiro para 7,5% em abril. Agora, diz Rangel, a redução começa a ser vista nas pessoas acima dos 70 anos, grupo etário imunizado na sequência.

Quando o oxímetro não detecta

Entre as muitas preocupações dos médicos está a ocorrência maior nas últimas semanas de uma condição chamada hipoxemia silenciosa. O paciente não percebe a falta de ar, mesmo que a saturação de oxigênio despenque e a pessoa esteja à beira da morte. Tampouco a detectam os monitores hospitalares e, menos ainda, os oxímetros comuns. Esta condição só é identificável pelo exame de gasometria.

— Temos observado uma piora súbita, em geral do sétimo para o nono dia, de alguns pacientes que agravam sem comorbidade. Não há uma só causa para tantos casos graves em jovens — frisa o coordenador da UTI 5 do Gazolla, Bruno Tessitore.

A intensidade na Covid se manifesta, por exemplo, na média de 46 internações por dia. E houve dias em março que chegaram 65 ambulâncias diárias ao hospital. Todas com pacientes tão graves que sutis alterações no fluxo de oxigênio podem ser letais, explica Rivelino Trindade, diretor assistencial médico da unidade.

‘Vacina cumpre seu papel’

O hospital também acompanha os casos de quem adoeceu após a primeira dose da vacina, quando ainda não há proteção para a maioria dos indivíduos. Há poucos casos com duas doses: a maioria, ligada a infecções logo depois da aplicação, quando o corpo ainda não desenvolveu imunidade. Também chamam a atenção dos médicos casos de quem perdeu o prazo ou que não seguiu o esquema vacinal corretamente.

— A vacina está cumprindo o seu papel, o de evitar casos graves e mortes — diz Roberto Rangel.

Os dados levantados pelo banco do Ronaldo Gazolla indicam que não só a faixa etária de doentes e mortos está mais jovem, mas que muitos são obesos e que os óbitos ocorrem com menor tempo de internação.

fonte:extra.globo.com

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