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17/10/21

 

Alta no combustível leva motoristas de apps a prejuízos e desistência

Lucro com corridas compensa pouco, na opinião de condutores de SP ouvidos pelo R7, mesmo após empresas anunciarem reajustes


Gabriel Croquer, do R7

Pouco depois de outro aumento no preço da gasolina anunciado pela Petrobras e sete semanas consecutivas de alta nos postos do país, motoristas de aplicativo reclamam que nem mesmo os reajustes nos preços do transporte de aplicativo anunciados pelas principais empresas do setor (Uber e a 99) têm sido suficientes para garantir o custo-benefício de levar clientes em troca de uma renda extra.

A gasolina no Brasil vem registrando valor médio superior a R$6 o litro, o preço mais caro da história, em aumento de quase R$ 80 desde o início do ano. Outros combustíveis utilizados pelos motoristas, como etanol, diesel, GLP (Gás Liquefeito de Petróleo) e GNV (Gás Natural Veicular) também sofrem com as altas.  

Na capital paulista, onde os reajustes no preço do combustível foram altos em diversos bairros, milhares de motoristas desistiram da profissão. "A gente bate na tecla de 25%, mas eu posso afirmar que o percentual [de pessoas que saíram da profissão] aumentou para 28%", relata o presidente da Amasp (Associação de Motoristas de Aplicativo de São Paulo), Eduardo Lima de Souza.

Para controlar a evasão de motoristas e reclamações de clientes, as plataformas anunciaram reajustes no valor das corridas. 

A Uber, por exemplo, deu aumento direto no preço, que chega a até 35% de reajuste na Grande São Paulo. Já a 99 anunciou que a taxa subirá 25% em alguns municípios, mas que o aumento será totalmente subsidiado pela empresa.

A novidade não conseguiu acalmar o motorista Rosemar Pereira, que mora no Aricanduva, zona leste de São Paulo, e trabalha 12 horas por dia. Ele afirma que para conseguir valores melhores ainda precisa se deslocar para outras regiões de São Paulo, o que acaba não compensando, em razão da despesa com combustível. Em locais e momentos com alta demanda, o preço dinâmico adotado pelas principais empresas de app faz o valor das corridas subir.

"Se eu estou em um lado da cidade, vou ter que atravessar São Paulo para conseguir a viagem com um valor melhor. Todo o lucro que eu ia ter eu já gastei em combustível atrás deste aumento aí", relata Pereira.

Os motoristas explicam que a baixa lucratividade é responsável direta pela quantidade de corridas recusadas e canceladas, o que vem sendo alvo de reclamação de consumidores. Com combustíveis caros e as taxas cobradas pelos aplicativos, os trajetos de distâncias mais curtas não compensam na maioria dos casos, relatam.

"Tem cidades que têm uma demanda alta de corrida, e outras uma demanda muito baixa. Para um motorista fazer um faturamento bruto de R$ 150 a R$ 200 por dia, ele acaba trabalhando de 10 a 12 horas por dia. Sendo que desse valor, 50% é lucro e outro 50% é despesa", diz o motorista Alvim E. S., que preferiu para não ter o nome completo divulgado.

GNV

A fuga de motoristas de apps se repete em outras capitais do país. O motorista Carlos Araujo, de Recife, diz que o trabalho e o risco de transportar passageiros pelos aplicativos vale a pena para dois tipos de motoristas: aqueles que têm carro próprio e também os que possuem condições  de investir no combustível GNV, mais barato. "Para os outros a situação complica", afirma.

"Com a gasolina está meio a meio: se você ganha R$ 100, você gasta R$ 50 de combustível, que não é o suficiente. Tem o desgaste do carro a depreciação do veículo ao longo do tempo. O lucro pouco compensa. Infelizmente, o desemprego e a falta de opção obrigam a isso", diz.

Motoristas que conseguem trabalhar com GNV, no entanto, afirmam que também têm prejuízos. "O valor do GNV era R$ 2,79/m³, hoje está em R$ 4,19/m³. Tem lugar em que está R$ 4,30/m³", conta Rodrigo de Leyoón Herneck, que, mesmo desempregado e sem outra fonte de renda, desistiu de trabalhar com o carro alugado na cidade de Rio de Janeiro.

Para a professora de economia do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) Juliana Inhasz, o caminho para o preço dos combustíveis cair passa pelo controle das turbulências políticas, o que poderia gerar mais confiança em investidores internacionais e a volta do crescimento econômico do país. "Uma parte significante deste aumento de preço vem da taxa de câmbio", afirma.

"Nos últimos tempos a gente já tem feito essas políticas de aumentar juros de uma forma razoavelmente agressiva, e a gente não está conseguindo ver a taxa de câmbio cair, porque aí entra o segundo fator: o político. O Brasil é um país considerado muito vulnerável", comenta. 

Empresas

Em resposta ao R7, a 99 afirmou que seu reajuste busca "manutenção do equilíbrio da plataforma junto ao objetivo de continuar oferecendo uma fonte de ganho aos motoristas parceiros em um meio de transporte financeiramente viável, seguro e eficiente para a população", explicou a empresa.

A Uber disse que sempre busca considerar as necessidades dos motoristas parceiros e que tem feito uma revisão e reajustado os ganhos dos motoristas parceiros em diversas cidades.


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