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15/11/21

 

Modelo em ‘Verdades secretas 2’, Erika Januza conta: ‘Cresci sendo julgada como feia, eu era só a neguinha do cabelo duro’

A atriz estreia no posto, na escola de samba de Niterói
Foto: Reprodução de Instagram
Naiara Andrade

Todo ano, Erika Januza planeja algo especial para o Dia da Consciência Negra, ela conta. Mas, desta vez, a data promete ser a mais inesquecível de todas para a atriz: no próximo sábado, ela será coroada rainha de bateria da Unidos do Viradouro, realizando um sonho antigo. “É tão simbólico isso acontecer justamente nesse dia! Fico toda arrepiada só de falar. Pra mim, 20 de novembro tem que ser lembrado e celebrado; é de reflexão e protesto, tudo junto. E a coroação vai ser uma festa linda, com direito a feijoada, presença de Jorge Aragão e do Cordão da Bola Preta... Não posso entregar muitos detalhes, mas vou chegar ao evento em grande estilo”, anuncia a mineira de Contagem, de 36 anos, que fez da cidade do carnaval sua morada há quase dez.

Em maio, ela realizou outro sonho, o da casa própria. No imóvel que se deu de presente de aniversário, localizado na Zona Oeste do Rio, Erika partilha o cotidiano com o namorado, o artista plástico Juan Nakamura, de 22 anos. Dona Ernestina, de 57, também aportará no novo endereço nesta semana, diretamente da Bahia: “Depois de tantos anos longe, enfim vou ter colinho de mãe. Ela vem morar comigo, junto com meu padrasto”.

Nesta entrevista à Canal Extra, acompanhada por sessão de fotos realizada na quadra da escola de samba de Niterói, Erika fala sobre a feliz nova fase de sua vida e relembra os obstáculos que, ao contrário de bloquear sua trajetória, a impulsionaram a chegar até aqui. A atriz também conta detalhes das gravações de “Verdades secretas 2” e “Arcanjo renegado”, produções do Globoplay em que tem dado o que falar nos papéis da modelo Laila e da futura policial Sarah, respectivamente.

Sem diálogo

“Na minha casa, a gente não conversava sobre as questões da negritude. Éramos negros e ponto. Vivi muitos momentos tristes na escola que não compartilhei com meus pais, coisas cruéis que eu ouvia e estão marcadas em mim até hoje. É muito importante os adultos conversarem com as crianças, estimularem sua autoestima, destacarem seus valores, com o cuidado de não deixá-las crescerem vaidosas demais. Quando eu for mãe, vou enaltecer a beleza do meu filho ou da minha filha, mostrar que a diversidade existe e tem que ser respeitada”.

‘A feia’

“Cresci sendo julgada como feia. Eu era a amiga em que as mães confiavam para sair junto com suas filhas porque era quietinha e não chamava atenção dos meninos. Eu era só a neguinha do cabelo duro. Isso me magoava, e eu me fechava ainda mais na minha timidez. Lembro com tristeza, mas também penso: ‘Olha aí, Erika, onde você conseguiu chegar, apesar de’. A gente não pode deixar que ofensas virem verdades”.

‘Nãos’

“Eu não era uma menina com boa autoestima. Apesar disso, sonhava ser modelo. Quando chegava para algum casting em agência, já me olhavam estranho. Primeiro, porque eu não tinha altura para a profissão. Depois, porque meu cabelo era alisado, não refletia a minha essência. Mas ele me fazia feliz, por me proteger dos comentários maldosos. Levava muitos nãos, mas não desistia”.

Concursos de beleza

“Aos 17 anos, comecei a participar de concursos de beleza. Foram muitos! Às vezes, dependia de cupom de jornal. Eu pegava os exemplares para vender na rua só para pedir o cupom que tinha dentro. Ganhei dois concursos, e essas duas vitórias foram debaixo de protestos. Como uma menina negra podia ser a mais bonita? As mães das outras candidatas me xingavam. Teve concurso que eu não ganhei e que os jurados vieram falar pra mim que tinha acontecido alguma coisa errada, porque de acordo com os votos deles seria meu o primeiro lugar”.

Apoio dos pais

“Minha mãe era minha companheira fiel em todos os concursos. Um ensinamento dela eu trago comigo até hoje: ‘Fica tranquila. Se não deu certo, é porque não era pra ser seu. Deus sabe de todas as coisas’. Essas frases sempre vêm à minha cabeça quando não passo em algum teste ou não consigo fechar algum trabalho. Meu pai falava de mim com orgulho para a vizinhança. Eu me lembro que uma vez saí no jornal da minha cidade, numa foto pequenininha, preto e branca, porque tinha passado para a semifinal de um concurso. E ele carregava esse exemplar amarrado na moto, mostrando a todo mundo. Eu queria muito que ele estivesse aqui para ver o que está acontecendo de bom comigo e para eu poder proporcionar coisas boas a ele, que trabalhava muito! Podia ser domingo ou fora de hora, se batessem à porta lá de casa, estava pronto para atender, como mecânico ou serralheiro. Faleceu com 43 anos (ela tinha 19 na época), de infarto fulminante. Ele bebia muito, não cuidava da saúde. Foi muito triste”.

Representatividade

“Quem desdenha da representatividade não sabe da importância dela. Eu não teria queimado meu couro cabeludo tantas e tantas vezes, alisando os fios, se houvesse mulheres como eu para me inspirar, quando nova. A farmácia só vendia xampu para cabelo liso, e eu comprava. Diziam que batom colorido não combinava com pele negra. Então, passei anos usando gloss incolor na boca. Até eu me libertar e entender que existem novas possibilidades, que eu posso usar, sim, muitas cores e vários cabelos, demorou. Hoje em dia, encontro na internet centenas de imagens com dicas de roupas, maquiagens e penteados maravilhosos pra mim. Mas antigamente não tinha isso, o que havia era uma crença limitante em torno da beleza negra”.

Preconceito racial

“Entra ano, sai ano, pensamentos e atitudes arcaicos se repetem. Lutar pela igualdade e pelo respeito é árduo. As pessoas precisam respeitar quando denunciamos o preconceito, e não julgar como ‘mimimi’. É uma dor que só quem passa sabe. Ver, diariamente, notícias sobre morte ou violências por causa da cor da nossa pele é exaustivo. Depois que fiquei conhecida, sofro menos com o racismo, não posso negar. No geral, não sofro perseguição de hater e nem dou atenção a quem comenta negativamente nas minhas fotos. Mas, dependendo do nível de agressão, não deixo passar. Racismo não pode passar; humilhação e menosprezo não podem passar”.

Enfim, modelo

“Estou muito realizada! Além de virar modelo na ficção (em ‘Verdades secretas 2’), a carreira de atriz me permite fazer muitos trabalhos nessa área. Um sonho foi o caminho para me levar a outro. O mais perto que eu tinha chegado de modelar foi numa loja de roupas em Belo Horizonte em que trabalhei: desfilava com as peças para as clientes verem. Como modelo fotográfico, nunca dei certo, mas não desisti. E foi numa dessas tentativas que me tornei atriz, em ‘Subúrbia’ (série da Globo em que estreou como protagonista, em 2012). Mandei a foto e fui chamada. Meu momento estava guardado”.

O alerta de Laila

“Laila entra numa busca desenfreada por um corpo perfeito, que não existe. O grande alerta é o cuidado com a automedicação, o abuso dos remédios para emagrecer. Quis perder bastante peso para contar essa história, achei que seria coerente. Procurei um médico ortomolecular, um nutricionista e um chef de cozinha, para a preparação das comidinhas saudáveis. Eu nunca tinha feito dieta na vida e segui à risca o que me recomendaram. Não passei fome, tinha até meu dia de junk food, em que eu abusava dos empanados, que amo! No dia seguinte, voltava ao jejum intermitente e à alimentação regrada. Do manequim 38 fui ao 34, as roupas já estavam caindo. Era hora de parar de emagrecer. Com 1,66m de altura, cheguei aos 49kg. Agora, estou fazendo o caminho inverso, para ficar mais forte para viver a policial Sarah, de ‘Arcanjo renegado’. Já ganhei uns quatro quilos e estou malhando para, talvez, voltar aos meus 59kg/60kg”.

Entrega e exaustão

“Para as cenas de euforia de Laila, montei uma playlist agitada. Ficava no camarim, trancada, pulando e cantando enlouquecidamente. Quando me chamavam para gravar, eu estava com a energia lá em cima, quicando. Saía elétrica das gravações, a ponto de ir para o estacionamento errado da Globo, procurar meu carro, e chegava em casa exausta. Na cena do desfile, em que a personagem tem alucinações, eu me concentrei tanto, que, quando chegou a hora do ‘Ação!’, eu estava toda me tremendo mesmo, suando. Não precisei fingir. Fiquei meio em transe, num nível que nunca atingi para personagem nenhuma. E a direção me permitiu criar, palpitar. Comecei a propor situações, como Laila roncar alto e babar, numa próxima fase”

Pudor

“Só gravei uma cena quente (com Sergio Guizé, que faz Ariel, marido de Laila). Usava mais tapa-sexo para tomar banho, porque minha personagem vive debaixo do chuveiro. A questão da nudez nem é tão difícil, mas a cena a dois... Pra mim é um dilema ter que fazer sem parecer falso e, ao mesmo tempo, não querer que pareça verdadeiro, entende? Tenho pudor, respeito ao colega. Terminei falando: ‘Manda um beijo pra Bin (Bianca Bin, mulher de Guizé), hein!’. Fico sem graça”.

Climão em casa

“Juan assistiu a essa cena de sexo da novela comigo. Eu disse que avisaria quando chegasse a hora, e ele quis ver. Fiquei muda, e ele, mais mudo ainda. Ficou um clima estranho (risos). Depois disso, demos ‘pause’ na novela. É muito difícil pra quem não é ator visualizar, né? No estúdio, gravando, não é nada sexual, não tem clima, é um monte de gente em volta e o diretor orientando”.

O que a pandemia uniu...

“Juan foi um apoio durante a pandemia. Morávamos em apartamentos separados, no mesmo prédio. Depois que me mudei para a casa nova, ele veio pra cá. Nos conectamos ainda mais, nos damos superbem. A diferença de idade (14 anos) não é uma questão. Foi uma preocupação minha no início, cheguei a pedir autorização à mãe dele (a atriz Carol Nakamura). Eu tinha receio porque sempre namorei homens mais velhos. Mas entendi que nossas personalidades combinam, e fiquei em paz”.

De farda

“Uma semana depois que terminei de gravar ‘Verdades’, comecei ‘Arcanjo renegado’. Sarah vem forte, guerreirona, na nova temporada. Fiz um treinamento com um major do Bope, gravei na Rocinha. Foi uma experiência impactante. Fiquei impressionada com a questão da falta de saneamento. Voltei pra casa refletindo, até comentei com Ludmilla (a cantora está no elenco da série). Ela está se saindo tão bem na atuação! Virou minha parceirona”.

Arma na mão, frio na barriga

“No dia em que veio à tona a notícia da tragédia com Alec Baldwin, nos Estados Unidos, eu gravei minha primeira cena com arma de fogo. Fiquei tensa, rezei, mas nossa produção é muito responsável, tudo é verificado, a arma é de festim. É uma série de ação, com arma na mão o tempo todo, mas eu me senti muito segura pra fazer”.

Carnaval 2022

“Estou tão empolgada! Pedindo a Deus para estarmos todos com saúde quando chegar fevereiro... O povo está precisando extravasar. Acho que esse vai ser o carnaval dos carnavais. Para mim, estar na Sapucaí já é, por si só, uma realização, seja em que posto for. No de rainha, então, é muito forte! A bateria é o coração da escola. Não caibo em mim de tanta euforia e ansiedade”.

fonte:https://extra.globo.com/

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